sexta-feira, Setembro 30

J'adore répondre. Je réponds même quand on ne me demande rien.



"Je ne vous aime pas", peça de Marcel Achard, escrita em 1926.

mais olhos que barriga:

Eu quero ISTO!

classificados COTOVIA

Image hosted by Photobucket.com

oferece-se:
A Biblioteca Almeida Garrett já tem disponíveis para empréstimo (na estante de novidades, logo à entrada) os primeiros volumes do Curso Breve de Literatura Brasileira editados pela COTOVIA. No sábado requisitei a antologia de contos de Machado de Assis "Um homem célebre" e logo à terceira história decidi substituir todos os tempos de antenas, telejornais, debates, crónicas e produtos similares onde aparece o homo politicus pela "Teoria do Medalhão - um diálogo". Não é preciso mais nada para compreender quase tudo. Guardadas as proporções, (...) vale o "Príncipe" de Machiavelli. Vamos dormir.

precisa-se:
Só me falta ler um livro (dos traduzidos para português, entenda-se) de Thomas Bernhard: "Minetti seguido de No Alvo", editado pela Cotovia. Distraí-me, deixei andar e agora dei com o livro esgotado (reparem bem: é um livro de teatro! a tristeza mistura-se com o júbilo). Se alguém souber onde posso encontrar um exemplar esquecido, amarelo, mesmo com uma ou outra páginas dobrada, agradeço muito.
deixa-me contar-te uma história sobre cadernos de notas

Há um tipo, não, não é correcto charmar-lhe tipo, é um rapaz ainda, embora, agora que penso nisso, não consigo adivinhar quantos anos tem, faz parte de um certo género de pessoas que não envelhecem, creio que daqui a dez anos manterá o seu ar decidido e ao mesmo tempo assolapado, tenho uma teoria sobre isso mas não vem ao caso. Bom, voltando ao rapaz; ele é uma especie de Walser, de aprendiz de Walser digamos, pelo menos assim o imagino, um Walser só substantivo, logo menor. Não descobri nos seus gestos a delicadeza do escritor e os olhos, escondidos por trás dos óculos, nunca os vi. Vive para os meus lados; anda com um saco muito cheio, a tiracolo e uma agenda enorme nas mãos onde anota sabe-se lá o quê. Já o encontrei de manhã, por volta das nove horas, em frente à tabacaria. Deduzi que copiava os títulos dos jornais e nota bem o que digo, copiava. É o que ele é? Um copista que passeia? Mas ele nem sequer passeia, percebe-se que tem um rumo, mesmo que seja labiríntico. Move-se em passo rápido, às vezes apanha o autocarro, a linha número setenta e oito. Lá dentro, coloca-se estrategicamente a meio, encosta-se a uma das barras, e continua a rabiscar. O que é que ele está a catalogar com tanto afinco? É uma incógnita. Serão palavras ou números? Espreito para os papéis mas só vejo uma mancha indecifrável. Olhando para o seu rosto sério e concentrado dir-se-ia que cumpre uma missão. Ao escrever, também ele se ele ausenta? Para onde? Um dia passou-me pela cabeça segui-lo e roubar-lhe a agenda mas não consigo arranjar coragem e depois, ele sem a agenda, é o quê? Há dias em que tenho pena do rapaz e outros em que o invejo. O caso continua em aberto.

Spam tale

Hello, do you remember me?
I'm Ervin from NY, I have taken new email address.
 
Remember we spoke about a problem of short penis?
I have found at last a good product which is capable to correct this problem!!!
This the best that i ever tried!!!
My power and pleasure has trippled, my wife can hardly keep up, my penis has gone from 3.5 inches to just over 6 and is still growing!

This is More-Size, which I found at http://www.appeases.net/today/
Try it necessarily!!!
--
The best regards,
Ervin Jacobs

quinta-feira, Setembro 29

Vox

A importância da voz própria num escritor é uma história para meninos.
Basta escutar a voz pavorosa do Pound.

Salón literario

Siempre había deseado tener un salón literario y por eso en cuanto recebió la cuantiosa herencia de su tío, decidió abrir esa sucursal del Olimpo con licores y sandwichs.
El estafador se prestó a asesorarle y lo primero de que le convenció es de que para tener en salón literario había que gastar un dinero previo en resucitar grandes hombres.
Le hizo un presupuesto.
Por resucitar a Balzac, 20.000; por resucitar a Victor Hugo, 18.200; por resucitar a Anatole France, 12.500; por resucitar a Blasco Ibánez, 5.200; por resucitar a Carrere, que no ha muerto, 1.150. Total, 56.600.
Se hicieron estos gastos preliminares, se preparó el salón con espejos dorados y arañas y el ía de la recepción fueron llegando — preparados por el estafador — sensacionales y falsos hombres de letras, apócrifos senadores, supuestos notarios.
Total, que a las dos de la madrugada de la primera sesión de salón literario los falaces resucitados, y los vivos de siempre, habían consumido el salón literario, sus bebidas, sus consolas, sus espejos, sus relojes, sus candelabros, sus álbumes y hasta sus ceniceros.

Ramón Gómez de la Serna, "Caprichos", Editorial Optima, Barcelona [para o Rui, por supuesto]

duérmete, duérmete

Vou vendo os filmes que quero ver um bocado ao acaso, conforme me lembro, conforme os encontro; sem qualquer ordem cronológica. Só assim se explica que ontem tenha descoberto a influência nítida de Andrei Tarkovski em duas ou três cenas de Los Olvidados de Luis Buñuel. A ilusão durou apenas alguns segundos; é precisamente ao contrário, dei-me conta, é do sonho de Pedro ou do leite com que Meche se lava, que vêm certas imagens de Tarkovski.
A relação é assumida: em "Esculpir o Tempo" (na página 57 da 1ª edição da Martins Fontes de Agosto de 1990) o realizador russo, para além de enaltecer as qualidades éticas e estéticas de Luis Buñuel, confirma que é um dos cineastas de quem se sente mais próximo.
Se voltarmos a inverter a questão temporal — e não é o cinema a arte que melhor (des)encadeia o tempo? — encontramos Buñuel em 1982, em conversa com Tomás Perez Turrent e José de la Colina:
— (...) Teria gostado de ver cair um raio sobre o pedaço de carne que a mãe oferece e que chovesse dentro do quarto, mas era muito difícil de conseguir, não tinhamos meios técnicos. Atraía-me muito usar o ralenti, a câmara lenta. Também há câmara lenta na imagem do cão que avança pela rua, quando El Jaibo morre. Sempre gostei do ralenti, porque dá uma dimensão inesperada, mesmo ao gesto mais banal, que não percebemos à velocidade normal.

A chuva que Buñuel não pôde filmar encontra-se em vários filmes de Tarkovski, e esse movimento mais lento em "O Espelho". Isto podia continuar por aí fora, até chegar a deus/Deus.

Image hosted by Photobucket.com

Deus já despediu o canalizador. A seguir somos nós

Todos os dias, ao chegar ao escritório, um tipo pendurado num cartaz pergunta-me se estou interessado em "mudar Mafamude". Eu já tentei explicar ao tipo que devia perguntar antes se estou interessado em "mudar de Mafamude". Mas ele não me ouve. É um político a sério.

Happy hour

Eu acredito no valor social das crónicas do Eduardo Prado Coelho. Têm um lado subversivo que me agrada muito. Quero dizer, é das poucas leituras capazes de pôr alguém a rir a bandeiras despregadas num carrancudo autocarro a abarrotar de gente e em plena hora de ponta.

quarta-feira, Setembro 28

Pergunta, resposta

"O senhor já ganhou quase todos os prêmios literários possíveis e agora seus livros estarão junto com os clássicos na coleção Library of America. O que isso significa para o senhor?

PHILIP ROTH: É melhor do que ser atropelado por um caminhão, não acha?"

Entrevista de Philip Roth, no Prosa & Verso desta semana.

Quando o carteiro é o meu projeccionista

Image hosted by Photobucket.com
Los Olvidados, de Luis Buñuel

Caligrafia

Felizmente, o meu talento para a literatura não tem livro de reclamações.

A mania das novelas

"Contarei a V. M. ua cousa que a meu pesar me lembra. Caminhava por Espanha e, entrando em ua pousada bem cheo de neve, não houve algum remédio para que a hóspeda ou suas filhas, que eram duas, me quisessem abrir um aposento em que recolher-me. E quanto eu mais apertava me desenganavam melhor de que nenhua se levantaria donde estava sem acabar de ouvir ler certa novela, cuja história ia muito gostosa e enredada. E tal era a sofreguidão com que ouviam que nem ameaçando-as com que iria a outra pousada quiseram desistir de seu exercício, antes me convidavam que ouvisse os lindos requebros que Cardénio estava dizendo a Estefânia, que tudo isto rezava a boa novela. Enfim, eu me fui apear a outra parte e, voltando em breve tempo por aquele lugar, e perguntando pela curiosa leitora e ouvintes, me disseram que muito poucos dias despois as novelas foram tanto adiante que cada ua das filhas de aquela estalajadeira fizera sua novela fugindo com seu mancebo do lugar, como boas aprendizes da doutrina que tão bem estudaram."

D. Francisco Manuel de Melo.

They live!

A notícia do dia, via Linha dos Nodos.

Inferno, segundo acto

Na Terra. Adão e Eva debaixo da árvore da ciência. Lúcifer disfarçado de serpente

EVA: Eu nunca tinha reparado nesta árvore.

ADÃO: Proibiram-nos esta árvore.

EVA: Quem tal disse?

ADÃO: Deus.

LÚCIFER, entrando: Qual Deus, se há tantos?

ADÃO: Quem és?

LÚCIFER: Eu, Lúcifer, o Portaluz que deseja a vossa felicidade e sofre as vossas penas. Olhai para a nova estrela da manhã que anuncia o regresso do sol! É o meu astro, com um espelho por cima que reflete a luz da Verdade. Na plenitude dos tempos hão-de os seus raios guiar certos pastores de um determinado deserto até à manjedoura onde nascerá o meu filho, redentor do mundo.
Quanto a esta árvore, se lhe comerdes o fruto ficareis conscientes do bem e do mal. Sabereis, então, como a vida é um mal e vós não sois deuses; como o Maligno vos cegou e a vossa existência só serve ao riso dos deuses. Comei e tereis o dom da libertação das dores, a alegria da morte!

EVA: Quero saber e libertar-me! Come também, Adão!

COMEM AMBOS O FRUTO PROIBIDO.


August Strindberg, tradução de Aníbal Fernandes, Assírio & Alvim, 1988
(representado no filme "Le bassin de John Wayne" de João César Monteiro)

terça-feira, Setembro 27

O Amor da Romã

Disseram-me que talvez tenha sido uma romã, talvez Eva tenha seduzido Adão com uma romã.

Image hosted by Photobucket.com

Se em vez de um blogue

isto fosse o paraíso, o verdadeiro quero eu dizer, o Jardim do Éden; se em vez de Willie e Winnie nós representassemos Adão e Eva, os primeiros; então não tenho dúvidas nenhumas, queriamos ser o Adão e Eva de Mark Twain. Seguir a bíblia, pecar, tudo fariamos para salvar a humanidade do tédio e da vida eterna. Não dias felizes mas dias esplendorosos, três para exemplo:
SÁBADO
O novo ser come demasiada fruta. O mais provável é que nos vá fazer falta. NÓS de novo! Essa palavra era do ser... é também minha, agora, de a ouvir tantas vezes. Muito nevoeiro esta manhã. Eu não saio para o nevoeiro. O novo ser sai. Sai com todo o tipo de tempo e regressa com os pés enlameados. E fala. Costumava ser tão prazenteiro e sossegado por aqui...

DOMINGO
Aguentei-me. este dia está a ser cada vez mais desgastante. Tinha sido seleccionado e posto de parte em Novembro passado como dia de descanso. Esta manhã fui dar com o novo ser a tentar deitar ao chão maçãs daquela nova árvore proibida.

SEGUNDA-FEIRA
O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem. Não tenho objecções. Diz que é para o chamar quando queira que ele venha. Eu disse que, nesse caso, era supérfluo. esta palavra fez-me subir na sua consideração e é, de facto, uma longa e boa palavra capaz de suportar a repetição. O novo ser diz que não é um ser, mas uma Ela. Dúvido, mas tanto me faz. O que Ela seja não me faria diferença se Ela se metesse na sua vida e não falasse.


Mark Twain, "Excertos dos diários de Adão e Eva", tradução de Hugo Freitas Xavier, cavalo de ferro, Fevereiro de 2004

Encontrei pessoas

Encontrei pessoas que,
quando se lhes perguntava o nome,
tímidas — como se não pudessem exigir
o direito a ter também um nome —
respondiam «Fraulein Christian» e depois
«como o nome próprio», queriam simplificar
a apreensão das coisas,
nenhum nome mais difícil do que «Popiol» ou «Barbadaterra» —
«como o nome próprio» — por favor, não sobrecarregue as forças da Memória!

Encontrei pessoas que
cresceram num quarto com pais e quatro irmãos,
e à noite, os dedos nos ouvidos,
aprenderam no fogão da cozinha
cresceram, lindas por fora e ladylike como condessas —
e por dentro suaves e aplicadas como Nausica,
e tinham a fronte pura dos anjos.

Muitas vezes me perguntei, sem nunca achar resposta,
de onde vêm a doçura e a bondade,
e hoje inda o não sei e tenho de ir-me embora agora.


Gottfried Benn, "50 Poemas", tradução de Vasco Graça Moura, Relógio d'Água, Janeiro de 1998

maçãs macias

Na mercearia onde costumo comprar fruta, os letreiros exibem, junto ao preço, uma breve descrição. Resume-se a duas ou três palavras que explicam a proveniência, o tipo ou uma característica. Assim: as bananas são da madeira; os figos pingo de mel; as laranjas sumarentas; os morangos doces; os pêssegos maduros; e por aí fora. Ontem, enquanto escolhia uvas, vi pela primeira vez um caixote cheio de maçãs macias. Isso mesmo, maçãs macias.

Image hosted by Photobucket.com
Paul Cézanne, "Maçãs, pêssegos, peras e uvas"

segunda-feira, Setembro 26

demagogia (work in progress)

... adaptar; alargar; ampliar; apoiar; celebrar; concluir; concretizar; consolidar; construir; criar; defender; definir; descentralizar; dinamizar; elaborar; fomentar; fortalecer; implementar; instalar; intensificar; lançar; modernizar; organizar; projectar; promover; prosseguir; realizar; reestruturar; reforçar; reinstalar; sensibilizar; traçar; valorizar;...

III

No bosque há uma ave, seu canto imobiliza-vos e faz-vos subir o rubor às faces.

Há um relógio que não dá horas.

Há uma ravina com um ninho de bichos brancos.

Há uma catedral que decresce e um lago que se evapora.

Há um carrito abandonado na mata debastada ou que, enfeitado, desce a correr pelo carreiro.

Há um bando de humildes comediantes mascarados que se vislumbram na estrada através da orla do bosque.

Há, enfim, quando se está com fome ou sede, quem vos enxote.


excerto de Infância (Iluminações) de Arthur Rimbaud, tradução de Maria Gabriela Llansol,
"O Rapaz raro (iluminações e poemas), Relógio d'Água, Maio de 1998

O céu sobre Tombstone

Fico sempre admirada quando de certos filmes a preto e branco recordo as cores. Poder-se-ia dizer que é um erro da memória ou então um milagre dos cineastas mas não, não é nada disso, em "My darling Clementine", em mais de um plano, confirmei ontem, o céu é mesmo azul.

Uma colecção de histórias / Uma galeria de retratos

...os filmes suceder-se-ão como colecções de histórias (as dos desenhos de Jaime e as do sagaz Nasredin) e galeria de retratos (a dos meninos pobres e as dos pobres meninos ricos). Em todos estes filmes perpassa a ideia de que se pode crescer na margem como as plantas crescem a sombra. (Associação Os Filhos de Lumière)

9 OUT Jaime de António Reis + Outros bairros de Inês Gonçalves, Kiluanje Liberdade, Vasco Pimentel 30 OUT Les faits et dits de Nasredin (4 episódios) de Pierre-Marie Goulet + Um rei em Nova Iorque Charles Chaplin 13 NOV Les faits et dits de Nasredin (4 episódios) de Pierre-Marie Goulet + O quarto mandamento de Orson Welles 4 DEZ West side story de Robert Wise

Domingos | 16h00 | Auditório Serralves | Entrada gratuita

domingo, Setembro 25

Jean-Marie Straub e Danièle Huillet

Straub: O nosso método, onde é que o descobrimos? Não sei. Talvez em Hitchcock, digamos entre Bresson e Hitchcock...
Só conheço dois filmes de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet: a curta-metragem En rachâchant* e o belíssimo "Sicília!". Nos últimos tempos, porém, tudo me leva até estes cineastas inacessíveis. Primeiro foi o documentário de Pedro Costa "Onde jaz o teu sorriso?", tão dedicado e cativante; depois o polémico texto de João César Monteiro (artigo publicado na revista Cinéfilo e reproduzido em Morituti te Salutant); e por fim o catálogo da Cinemateca, encontrado por acaso na Biblioteca Almeida Garrett.
São filmes raros e também, creio, num certo sentido, difíceis. Exigem de nós os olhos abertos e a alma disponível. Segundo o catálogo da Cinemateca (que data de 1998), para além dos dois que referi (projectados nas salas de cinema da Medeia) apenas "Crónica de Anna Magdalena Bach" estreou comecialmente (no Quarteto a 28 de Janeiro de 1977) e foi exibido na televisão.
Pode-se gostar do que não se conhece? Aposto que sim, muito. Mas como é que se faz para encontrar o que já nos cativou? Para onde é que avanço? Nova Iorque, diz a Lídia. Nova Iorque? Nova Iorque!

_______
* adaptação de um texto de Marguerite Duras (filmado por ela uns anos mais tarde em formato longo com o nome de "Les enfants")

Uma pastorela para a manhã de domingo

Unha pastor ben talhada
Cuidava en seu amigo
E estava bem vos digo
Per quant'eu vi, mui cuidada.

Ela trazia na mão
Um papagai mui fremoso,
Cantando mui saboroso,
Ca entrava o verão...

E diss: «Ai! Santa Maria!
Que será de mim agora?»
E o papagai dizia:
«Bem, per quant'eu sei, Senhora».

Dom Dinis.

sábado, Setembro 24

Lektion 2

Na Alemanha, antes de 1933, os cinemas eram chamados Lichtspiele (jogos de luz).

(aula gentilmente leccionada pelo senhor Jean-Marie Straub)

sexta-feira, Setembro 23

You naughty boy!

«O que me agradou [no conto de Dauphne du Maurier] foi o facto de serem aves comuns, pássaros que vemos diariamente, conseguem compreender este estado de espírito?»
Alfred Hitchcock

o nosso CANDIDATO

Image hosted by Photobucket.com

Entram no palco dois homens, de grão na asa, sorriem com simpatia um para o outro, alisam os penteados, aproximam-se do microfone.

Assessor de Imprensa: Queridos eleitores! Está aqui, para conversar convosco, o nosso candidato. Hoje é o último dia da campanha, ainda podemos falar com os eleitores do nosso programa, os senhores eleitores ainda podem ver-nos assim, informalmente... como pessoas normais, por isso vamos aproveitar esta boa ocasião e passar de imediato ao que interessa. Passo a palavra ao nosso candidato! (Bate palmas, cede o microfone ao CANDIDATO.)

Candidato: Se ainda persistirem dúvidas quanto ao destino que os queridos eleitores darão ao seu voto, pois bem, dêem-mo, a mim. Não vão lamentar e, se lamentarem, eu devolverei esse voto aos senhores. Prometo que não acontecerá nada ao voto dos eleitores. Dentro de quatro anos vou devolvê-lo aos senhores eleitores, são e salvo. Isto no caso de me elegerem, é claro! Para já, o principal: o meu plano, se me elegerem, é eliminar o trabalho!

Assessor de Imprensa: Sim?

Candidato: Sim!... Ultimamente tenho andado a pensar!

Assessor de Imprensa: Sim?

Candidato: Sim! Tenho andado a pensar... e passou-me pela cabeça, aliás, surgiu-me definitivamente na cabeça no preciso momento em que me dirigia para este encontro com os meus queridos...

Assessor de Imprensa: ... eleitores!

...

e as promessas continuam. Espertalhão, o CANDIDATO revela estratégias estúpidas, mas com uma lógica férrea, grandes conhecimentos futebolísticos e muito pátuá. Conhecem o género, não é?
O texto é de Vladímir Presniakov e Oleg Presniakov e a tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. Os Livrinhos de Teatro são editados pela Cotovia & Artistas Unidos, encontram-se à venda nas melhores livrarias e cabem do bolso dos jeans.

Técnica mista

Para manter a forma, todas as manhãs finjo que saio de casa, apanho o autocarro e vou trabalhar no escritório. E depois finjo que escrevo sobre isso.

Duas Lolitas

"In the spring of 2004 Michael Maar published articles - first in the Frankfurter Allgemeine Zeitung and then in the Times Literary Supplement - pointing out striking similarities betweeen Vladimir Nabokov's classic novel, Lolita, and an earlier forgotten story (first published in 1916) by a largely forgotten German author and journalist, Heinz von Lichberg. Maar did not claim that Nabokov had plagiarised the piece, but suggested that the evidence did suggest some awareness on Nabokov's part of the precursor-story. It was a literary discovery that was widely reported and discussed."

A história não é nova. Mas vale a pena ler este artigo sobre o assunto.
Nesta página, há um longo excerto em português do artigo de Michael Maar, no Times Literary Supplement.

quinta-feira, Setembro 22

strangers talk only about the weather #23

Decidimos trocar o inverno na Rússia pelo Verão na Islândia.

Cantam as nossas almas

A revista dos Artistas Unidos é a melhor publicação literária portuguesa, depois da aguasfurtadas.

Arquive-se como filme perdido

O tempo não está para brincadeiras por isso — a Rita que nos desculpe a carreira tão curta — a fotonovela acaba aqui, sem fade. Os beijos ficam reservados para os participantes: Mário, Teresa, Olho Pineal, at, NunoC, Sandra Costa, Maria, Afonso Bivar, Carla de Elsinore, Pontinha, Lídia Pereira, Pedro e Pedro. That's All, Folks!

Pancadinhas no borato de sódio #10

Image hosted by Photobucket.com



[|<] [<]

Imagem: mais um fotograma de "Stranger than paradise" de Jim Jarmusch, sugerido por C.| Música: Calliope de Tom Waits (Sorry, not available anymore))

A CANSEIRA DOS MELHORES

«Em que anda a trabalhar?» — perguntaram ao sr. K. O sr. K respondeu: «Um trabalhão! Ando a preparar o meu próximo erro.»

Histórias do Sr. Keuner, de Bertold Brecht, tradução de Paulo Quintela, in Obras Completas (de Paulo Quintela) IV – Traduções III, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999

Dalla nube alla resistenza


No texto de introdução do catálogo que a Cinemateca Portuguesa dedicou a Jean-Marie Straub e Danièle Huillet em Novembro de 1998, António Rodrigues sugere que poder-se-ia explicar a obra dos dois cineastas através de curtas frases, de citações directa ou indirectamente extraídas dos seus próprios filmes.

Por exemplo, este ciclo poderia ter sido intitulado: Da nuvem à resistência
ou Os olhos não querem estar sempre fechados
ou Não reconciliados
ou Demasidado cedo, demasiado tarde
ou, de modo menos óbvio, Algo deve queimar em cada plano
ou Quando a terra voltar a brilhar verde para ti
ou É preciso? É preciso!
ou Mas no deserto, vós sois invencíveis
ou Destrói, estraga, engole, despedaça com uma fúria súbita o falso traidor, o sangue assassino
ou Mas se isto não é aquilo a que se chama cinema, que raio é então?
ou talvez En rachâchant
ou até Lições de história

Mil maravilhas

Quando deus fez os homens, deu-lhes várias coisas extraordinárias. Esqueceu-se, porém, da literatura. Alguém fez então notar a deus o seu divino erro. Este, reconhecendo a importância da literatura na vida terrena, ofereceu aos homens as fábricas inesgotáveis de bibelôs chineses.

quarta-feira, Setembro 21

Pancadinhas no borato de sódio #9

Image hosted by Photobucket.com

[|<] [<]
I'll give you a basket of hugs, but then you'll run away, I guess. You always run away.
— Maybe if your arms were two poems...
— I thought they were...
— Sometimes, in some cold, cold nights... [>|]

Imagem: fotograma de "Stranger than paradise" de Jim Jarmusch, sugerido por C.| Texto: Pedro.

Ver coisas

The Blue Brother

A Relógio D'Água, por sua vez, anuncia para breve a edição de "O Homem da Guitarra Azul", o clássico de Wallace Stevens, de 1937.
O Outono promete.

Ela sofria de um grave problema sentimental.

"Um tipo raro de disfunção fonético-semântica", explicaram os médicos. Em vez de beijos, rolavam pela sua boca em projecções fantásticas, verdadeiros seixos. Redondos, macios, cor-de-rosa.

with chairs, with foam



Julião Sarmento > I Love You (with chairs) + Kiss Me (with foam)

A notícia do dia:

uma rapariga de vestido às flores
atravessa uma ponte.

Lasse Söderberg

terça-feira, Setembro 20

Revisões da matéria dada

O Público de ontem incluía, na página 37, um poema de Nuno Júdice intitulado "O Banho de Susana", baseado na célebre história de "Susana e os velhos", contada pelo profeta Daniel, no Velho Testamento. Por qualquer razão que eu não compreendo, ainda há quem insista nos habituais lugares comuns associados a este episódio: durante o seu banho, a inocente Susana é vítima de um pérfido acto de voyeurismo cometido por dois velhos com más intenções e patati-patatá. Pela minha parte podem ter a certeza que não acredito nem pouco mais ou menos nessa historieta. Susana sabia muito bem que os velhos jarretas a espiavam. Há muito tempo que os velhos e Susana confraternizavam desta maneira. Tintoretto também notou que a história estava mal contada, pondo em cena todos os personagens em perfeita harmonia, juntando-os num tranquilo idílio.

Pancadinhas no borato de sódio #8



[|<] [<]
Àquela hora da tarde, o café estava praticamente deserto. Miguel acendeu um cigarro. Rita continuava atrasada. Do outro lado da sala, duas velhotas dormitavam, embaladas pela música caprichosa da máquina de café.
Miguel não sabia explicar porque razão gostava de Rita. Quer dizer, Miguel adorava nela precisamente o que deveria repugná-lo: a obsessão dela em relação à literatura. Miguel detestava o luxo literário. Rita exalava literatura por todos os seus poros, por todas as suas articulações, pelo seu corpo, pela sua alma. A sua vida era uma espécie de programa literário. Miguel era incapaz de apreciar pessoas como ela. E, no entanto, adorava-a. Pior: ele sabia que a literatura havia de a aniquilar. E, por consequência, a ele também.
Enquanto metade da sua cabeça pensava isto, a outra metade notou que Rita entrara no café e se encaminhava rapidamente para a sua mesa.
— "What would you give me for a basket of kisses?" — disparou Rita.
Miguel suspirou.[>]

Imagem: sugerida pelo Pedro | Texto: RMA

Tudo, compreende?

"Se passo demasiado alto / ou demasiado baixo / está tudo estragado. Não pode existir / uma malha muito lassa / um buraco / por onde a emoção / a luz / a verdade se escape. / Compreenda / que trabalho a tela toda / aproximo, no mesmo ímpeto / na mesma fé / tudo o que se espalha / tudo o que vemos se dispersa, / desaparece. / A natureza é sempre a mesma, / mas nada resta dela / do que nos aparece. / A nossa arte deve dar o frémito da sua duração / com os elementos, a aparência de todas as mudanças / deve fazer-nos apreciá-la / eterna / que existe por baixo dela? / Talvez nada, talvez tudo. / Tudo, compreende? (...)"

" (...) Mas se tenho a mínima distracção, / a mínima falha, / fraqueza, / sobretudo se interpreto excessivamente, / se uma teoria me fascina hoje, / que contraria a da véspera, / se penso enquanto pinto, / se intervenho, / pronto, desaparece tudo! / —Se intervém, como? / O artista é apenas um receptáculo de sensações, um cérebro / um aparelho registador. / Se intervém, se ousa misturar-se / voluntariamente no que deve traduzir / introduz a sua pequenez. / A obra é inferior./ — Para si, o artista seria então inferior à natureza? / Não, não disse nada disso. / A arte é uma harmonia paralela à natureza / se o pintor não se intrometer voluntariamente, / compreenda-me bem. / Toda a sua vontade, deve ser silêncio. / Deve fazer calar em si todas as vozes dos preconceitos. / Deve esquecer / esquecer, fazer silêncio. / Ser um eco perfeito / então, na sua placa sensível, / toda a paisagem se inscreverá. / Para a fixar na tela, para a exteriorizar, / virá depois a técnica, / mas uma técnica respeitosa, / que também só deve obedecer, / traduzir inconscientemente, / de tal modo conhece a língua, / o texto que decifra, / os dois textos paralelos, / a natureza vista e a natureza sentida / que devem, ambas, / amalgamar-se. / A paisagem reflete-se, / humaniza-se, / pensa-se em mim. / Objectivo-a, projecto-a / fixo-a na minha tela. (...)!

fragmentos do texto do terceiro plano de CÉZANNE de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, citados por João Botelho no artigo "Se isto não é o cinema, que raio então é o cinema?, páginas 62 e 63 do catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998
Image hosted by Photobucket.com

No outro dia, vimos (...) um filme de Stroheim que não conhecíamos, HELLO SISTER*: o que se perdeu no cinema, de lá para cá, é absolutamente fabuloso. Pois a democracia não deve existir apenas a nível das personagens, mas também a nível do equilíbrio entre a personagem e o espaço no qual ela é mostrado. Quando Stroheim mostra uma rua, a rua existe. Quando a personagem atravessa uma rua, é um terror, sente-se o que é uma rua, o trânsito e um ser humano numa rua. (...) Há muito pouca gente capaz de fazer isto, hoje. (...) seria necessário que em cada segundo, em cada plano, se sinta aquilo que Renoir chamava a feeria. É por isso que Stroheim é o maior, maior do que Griffith ou John Ford, mesmo que eu não me lembre de nada maior do que CIVIL WAR em HOW THE WEST WAS WON.

Jean-Marie Straub, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998

______
* Título com o qual foi distribuído WALKING DOWN BROADWAY (1932-36), iniciado por Stroheim e terminado por Alfred Louis Werker

Lost in adulation

Some writers achieve great popularity and then disappear forever. The bestseller lists of the past fifty years are, with a few lively exceptions, a somber graveyard of dead books.

Carlos Fuentes, na Sign and Sight.

segunda-feira, Setembro 19

Bela Infância

A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial
estava tão roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado.
Finalmente, num caramanchão sob o diafragma
encontrou-se um ninho de ratinhos.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros tinham vivido do fígado e dos rins,
bebido o sangue frio e passado
aqui uma bela infância.
Mas depressa tiveram também uma bela morte:
Deitaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!


Gottfried Benn, "50 Poemas", tradução de Vasco Graça Moura, Relógio d'Água, Janeiro de 1998

o vento nas árvores

Há uma frase muito bonita de Griffith: "O que falta ao cinema moderno é a beleza, a beleza do vento nas árvores". O vento é importante, (...) o vento não é nada mais do que o espírito...

Jean-Marie Straub, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998

Einstellung

Image hosted by Photobucket.com

(...) É necessário, acima de tudo, que a câmara não seja um olho, mas um olhar. Este é o trabalho. (...) E conhecer a distância, moral e material (dá na mesma) entre o que se mostra e a câmara. Para o enquadramento, os alemães usam a palavra "Einstellung". Einstellung também significa disposição moral. (...) O que é necessário, creio, é uma ideia. Uma ideia que não seja uma intenção simbólica nem psicológica. Uma ideia moral, logo política.

Jean-Marie Straub, Catálogo da Cinemateca Portuguesa, Novembro de 1998

domingo, Setembro 18

Lektion 1

(de manhã na esplanada) Misturo frases banais (Ich möchte mit Rita Wolbert sprechen) com poemas difíceis (Der Tod ist eine Blume, die blüht ein einzig Mal. / Doch so er blüht, blüht nichts als er. / Er blüht, sobald er will, er blüht nich in der Zeit. / ...) e, sem querer, descubro que "sombra" é do género masculino, diz-se: der Schatten.

Pensamento do dia

Se o amor é questão de corpo, há que conhecer intimamente esta ferramenta - por outras palavras, ler os anatomistas e não os poetas, frequentar as clínicas e não os teatros.
Miklós Szentkuthy, "À Margem de Casanova".

sábado, Setembro 17

Pancadinhas no borato de sódio #7

Image hosted by Photobucket.com
[|<] [<]
— Miguel? Preciso de falar contigo. Não, ao telefone não. No café. Daqui a meia hora. [>]

Imagem: Mario Algaze, Club La Paz, Bolivia, 1989. Sugerida por Lídia Pereira | Texto: C.

sexta-feira, Setembro 16

CXVI

A man walked into a bar at sunset, took his hat off and wiped his brow with the back of his shirtsleeve.
"After a hard day's work you deserve a cold beer," said the bartender.
"Gimme a cold beer," he said. "It's been a long day but it's all worth it now."
The rest of the work crew walked into the bar.
"We've been working hard and now working time is through," they said.
"There's nothing like a cold beer when all is said and done."
"Man this beer hits the spot," said one, "all day long, while I was working, I was imagining how good this was gonna taste."
"Yeah, there's nothing like an ice cold beer after a hard day's work," said another.


David Berman, From Cantos for James Michener: Part II , in Actual Air, Drag City
Quando alguém diz: "Gosto de comer poetas ao pequeno-almoço", não é ironia, é profissão de fé.

coffee & Mahler

Image hosted by Photobucket.com

Almoço de sexta-feira

Pão-alvo e pão molete em abundância; carnes assadas e grelhadas de diversas formas; guisados de nove espécies; couves repolhudas com tutano de boi; linguiças, salsichas e salpicões; salsichões, fricandós e presuntos; almôndegas e morcelas; carne-de-porco salgada; ovos preparados de cinquenta e três maneiras diferentes; trutas, azevias, rodovalhos e solhas, congros, lagostas e salmões; ostras e caranguejos; vinte e quatro espécies de caça; quartos de carneiro com alcaparras, carne de vaca de certo modo; polmes de ervilha, de favas e de espinafres; espargos e alcachofras; cem espécies de saladas; depois, queijos de todas as qualidades; pêssegos e pastéis de marmelo; coscorões, tortas de cem maneiras, cremes e confeitos (setenta e oito espécies); vinte qualidades de empadas; granjeias de cem cores; e tudo regado a vinho branco, a vinho tinto e de hipocraz em enormes copos.

Ementa, ainda que sumária, do banquete que os Gastrólatras ofereceram a Pantagruel e aos seus companheiros, durante a sua viagem até à terra de Bacbuc.
Rabelais tem o cuidado de sublinhar que do repasto nada sobrou.
...
Törless lembrou-se então de como lhe custara imaginar a vida dos pais. E olhou de soslaio para a mãe.
— O que é, filho?
— Nada, mãe, estava a pensar numa coisa.
E aspirou o cheiro levemente perfumado que subia do regaço da mãe.



fim de "As perturbações do pupilo Törless", tradução de João Barrento, D. Quixote, Lisboa, 2005

O movimento dos corpos celestes

Mathieu Carrière em Der junge Törless, de Volker Schlöndorff, 1966

O que mais me comoveu no livro de Robert Musil foram os movimentos de Törless. Longe de casa e da família, ele ensaia pela primeira vez os verdadeiros movimentos do corpo e da alma. É um percurso nebuloso e instável que o leva até aquilo que existe sem prova, aquilo que não se consegue descrever, uma espécie de números imaginários só que ainda mais inacessíveis e assombrosos. A partir daí o mundo de Törless será deslumbrante como nunca antes:
«E nisto reparou — como se fosse a primeira vez — como o céu era alto.
Foi como um sobressalto. Mesmo por cima dele brilhava no azul uma pequena abertura incrivelmente funda entre as nuvens.
Sentiu que tinha de ser possível subir até lá com uma escada comprida, muito comprida. Mas quanto mais ele aí penetrava, subindo com o olhar, tanto mais o fundo azul brilhante se retirava. E no entanto parecia que era possível alcançá-lo e fazê-lo parar com o olhar. Este desejo tornou-se torturantemente intenso.
Era como se a visão, extremamente tensa, disparasse olhares como flechas por entre as nuvens, e como se ela, por mais longe que apontasse, falhasse sempre por pouco o alvo.»

mas também obscuro e movediço:
«Há qualquer coisa de obscuro em mim, sob os pensamentos, e que eu não posso avaliar com o pensamento, uma vida que não se deixa traduzir em palavras e que, apesar disso, é a minha vida...»

quinta-feira, Setembro 15

Introdução aos estudos clássicos

Como Vergilio,
yo también amo a los pastores
con la diferencia de que,
dos mil años después del Mantuano,
encontré en un verde prado
un pastor reclinado en un tronco
tocando su armónica,
mientras pastaban las ovejas.

El fondo del paisage lo cerraba
una montaña azul, que hacía
un cuadro eglógico perfecto:
sólo me faltaba dialogar con el pastor.

Desde el alambrado lo llamé
levantando mi brazo
y él con el suyo me hizo un corte obsceno,
que me dejó como estúpido e mascando
las contradicciones de la vida y el arte,
el sexo y el amor.

Francisco Gandolfo

rua Justino Teixeira

As operárias saem entre as cinco e meia e as seis. Sobem a rua em pequenos grupos. Vestem roupas frescas e coloridas e trazem muitos sacos nas mãos, como se tivessem passado a tarde nas compras. Conversam; enquanto bebo o meu café junto à janela do primeiro andar apanho uma ou outra palavra. Lumière não as reconheceria. Nem JL Godard. E no entanto elas avançam, decididas, para o autocarro.

Pancadinhas no borato de sódio #6

Image hosted by Photobucket.com

[|<] [<]
«... a minha obsessão seria uma realidade, existiria realmente no meu espírito; ou seria apenas um sonho que eu tivera e não lograra esquecer, confundindo-o com a realidade?»

Não existem pessoas de sombra... é tudo invenção e delírio dos escritores. As sombras não me assustam, são pura evanescência, mero reflexo... não tenho medo e desprezo todos os livros que digam o contrário... malditos livros... [>]

Imagem: de Allyson Clay (sem data nem nome). Sugerida por C. | Texto: C. com citação de "A Confissão de Lúcio" de Mário de Sá-Carneiro e duas palavras roubadas a "A História Fabulosa de Peter Schlemihl" de Adelbert von Chamisso.

As Setas de João Barrento #11

O último, e talvez o mais marcante, "punctum" do dia não o foi propriamente, pelo menos no sentido exacto do termo. Trata-se de uma tabuinha de Giovanni del Marco, ou del Ponte (1385-1437), "Os Reis Magos", colocada, como que por acaso — e nisto está o "punctum" —, à entrada de uma das muitas salas dos Mestres antigos. Essa pequena tábua, uma barra mínima de inspiração bizantina e tons quentes, saltou, como seta despedida do branco da parede alta, quase só ombreira de acesso aos grandes mestres, para os meus olhos e para os que me acompanhram nesse dia: o seu "punctum" foi a sua situação de modesto mas intenso lampejo de beleza, destacando-se no branco neutro da parede. Se pudesse escolher, seria o quadro que traria para casa.

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Rejoicing in sound

A Lídia trouxe a boa nova: UBU IS BACK!

o pesadelo de JL Godard era o livro vermelho

Image hosted by Photobucket.com

quarta-feira, Setembro 14

Anedota

"Sonhei ontem que tinha um sapo gigante fechando o meu caminho. Ele não saía do lugar; eu ficava olhando pra cara dele à espera de qualquer coisa. (Verde.) Mas ele me encarava, piscava os dois olhos ao mesmo tempo, bem devagar, e dizia:

ÔI.

eu tossia um pouco, trocava de lado, ele olhava de novo e dizia:

ÔI.

foi assim a noite inteira - daí eu acordei, meu pai acendeu a luz e disse ÔI."

Respigado na Hortaliça. O "jornal" que ajuda a manter as gengivas saudáveis.

o sonho de JL Godard era fazer fotonovelas

Claro que não há mal nenhum em abusar dos adjectivos. Desde que o abusador use protecção.

"A banda [Mesa] que ninguém sabia quem era infiltrou-se nos ouvidos de muito boa gente, conquistou crítica, exposição mediática - e tudo isto com o mérito simultâneo de rasgar o hímen arreigado e acéfalo das 'playlists'"

João Bonifácio, suplemento "Y", do jornal Público (9 de Setembro).

take one

Image hosted by Photobucket.com

winnie:
a sombrinha que me deste. naquele dia. (Pausa). aquele dia. o lago. os nenúfares. (Olha em frente. Pausa) qual dia? (Pausa) quais nenúfares? (Longa pausa. Fecha os olhos. Campainha estridente. Abre logo os olhos. Pausa. Olha à direita)

As Setas de João Barrento #10

"A melancolia de um belo dia" (Chirico): grandes superfícies, céu e terra, monte e casa, arte e homem, e as sombras. Pintura do tempo. Anda por aqui toda a existência, desde as origens.

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Sarabanda

"Giacomo Casanova obtém a maior parte das suas vitórias amorosas no fundo das caleches - o que não deixa de ser notável, se pensarmos nos obstáculos da época. Molas de uma qualidade deplorável, estradas campestres férteis em lamaçais - com mais buracos do que a Lua! - corpetes e outros trapos femininos que entravavam os movimentos, sem esquecer os olhares indiscretos que lançam criados marotos - e, a despeito disso tudo, o homem triunfa em poucos minutos!
Sem dúvida que as mulheres desse tempo se mostravam mais consentâneas (pelo menos, nas 'Memórias'), isto é, mais viris quanto às coisas da carne. Apenas o critério da sensualidade? Mesmo nas mais grotescas posturas, o corpo é susceptível de se entregar às mais graves alegrias - e isto sem o menor cuidado estético.
Nem que sejam sublimes, as mulheres que exigem um ambiente apropriado - cores, perfumes, preliminares, Abschaukelung ('demora') - deviam deixar o amor para as outras. O 'ambiente' constitui sem dúvida o bicho mais insidioso que a impotência inventou! Só há uma coisa autêntica: servir o corpo nos seus mais burlescos gozos com o mesmo pathos que Orfeu punha ao serviço do seu alaúde infernal!"

Miklós Szentkuthy, "À Margem de Casanova".

terça-feira, Setembro 13

Pancadinhas no borato de sódio #5

Image hosted by Photobucket.com

[|<] [<]
Ela percebeu que tinha sido reconhecida. Confirmou as suspeitas no dia em que encostou a sombra à parede:

— Tu ou eu. Este buraco é demasiado estreito para ambas.

A sombra estava preparada para o ataque. Permaneceu em silêncio e esboçou um sorriso. Não imaginas o que te espera minha querida, pensou. [>]

Imagem: Sombra, de Lourdes Castro, s/d. Sugerida por C. | Texto: Carla de Elsinore

As Setas de João Barrento #9

"L' homme des nuages" (Frits van den Borghe, 1927): o Surrealismo belga mostra a metafísica ocidental quadripartida. No quadro, quatro nuvens e um homem a atravessá-las. Quatro níveis que se vão rarefazendo dos pés para a cabeça: ao nível dos pés, a Comida; ao nível do sexo, a Mulher nua; ao nível do coração, a Rosa; no topo, a Cabeça, o grande símbolo da encefalocracia ocidental desde Sócrates (só falta o nível cristão da Alma).

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Queridos leitores!

A semana passada decidimos contratar um consultor (um tipo muito bom, com diversos MBA's e devidamente reverenciado pela comunidade) para analisar o nosso blogue; queriamos ser proactivos. O dossier chegou hoje, pagámos um balúrdio mas valeu a pena pois ficámos a saber que, número um: falta-nos uma orientação política clara e ao mesmo tempo polémica; e número dois: precisamos de mais exposição pública, demonstrar mais sentimentos e afectos, gerar empatias.
Havia um número três que fazia considerações estéticas sobre o que escrevemos mas por descuido caiu-lhe um café em cima e ficou ilegível.

Voltando ao assunto, ainda pensamos fazer uma reportagem fotográfica, uma coisa tipo Wallpaper*, erótico@chique#homeless&design mas eu teimava em aparecer com o colete retro-reflector e o Rui..., bom, nem comento as propostas dele; além disso as nossas casas são uma lástima e nós não somos fotogénicos. Por defeito, desistimos dos sentimentos espontâneos.

Concluimos que nos restava apenas a opção política, por isso, e apesar de nos provocar vómitos constantes, resolvemos antecipar a campanha eleitoral e convidar O Nosso Candidato. Quem tiver pressa deve consultar o Livrinho de Teatro #13, página 85; quem puder, que aguente. É uma promessa para cumprir.

Perdas poéticas

Perco, em média, três poemas por semana
por desatenção e desmazelo.
Ainda há pouco um solicitou-me a atenção
e perdulário fingi não vê-lo.

Ah, o que perco por soberba
o que perco talvez por não aceitar
o que eu mesmo me ofereço.

Os que me vêem passar
me pensam rico, no entanto,
o que perdi não tinha preço.

Affonso Romano de Sant'Anna

Pancadinhas no borato de sódio #4



[|<] [<]
Como se sabe, Rita morreu no dia em que deveria começar esta fotonovela. O ponto mais alto da sua carreira de actriz e modelo fotográfico. Agora que já decorreu algum tempo e é possível olhar para trás com alguma serenidade, certos sinais ganham um sentido inesperado. Alguns dias antes da tragédia, Rita disse-me que em sua casa se passavam coisas estranhas durante a noite. E o mais surpreendente é que ela desconfiava da sua própria sombra. Rita estava convencida que, enquanto dormia, a sua sombra planeava a sua morte. [>]

Texto: RMA. | Imagem: "Some places in the world a woman could walk (Twitch)", de Allyson Clay, 1993. Sugerida por Afonso Bivar.

Atalante

Henri Langlois: Le cinéma muet fut un diamant d'abord brut, puis poli et taillé. Le cinéma sonore doit fondre deux ordres de matériaux, l'image et le son, comme le fait l'art du vitrail ou celui de la céramique.
Mais seul Vigo a réussi cette fusion parfaite: son cinéma est aussi homogène que du muet.


Image hosted by Photobucket.com

Dita Parlo no Teatro do Campo Alegre, hoje e amanhã às 18h30 e 22h00

É imenso o império do ice cream

Volto ao João César Monteiro, a Morituri te Salutant e à auto-entrevista em que o próprio se questiona sobre a realização do seu primeiro filme, um curto documentário sobre Sophia de Mello Breyner. Dois pequenos sublinhados :

— Não lhe parece que o seu filme possa constituir uma mudança na vida do documentarismo português?
— Não faço ideia. Acabei o filme em Dezembro e de então para cá tenho feito publicidade e comprado camisolas de gola alta. Não se muda nada a comprar camisolas de gola alta. Nem sequer o carácter.
...

— Que critério adopta na selecção dos textos escolhidos para o filme?
— Escolhi o final de "A Menina do Mar" porque gosto de ouvir ler contos infantis e porque desconfio que aquele bocadinho dá prazer aos meus amigos milaneses.
...

Dos amigos milaneses nada sei, no entanto percebo muito bem o prazer dos contos infantis e aprovo, aliás, mais do que isso, proponho comemorações privadas na esplanada do Apolo 80: gelado de framboesa para três — esperamos por Walser. Está bom tempo, ele há-de chegar. Como é que se diz gelado de frambroesa em alemão, Alexandra?

The Definition of Gardening

Jim just loves to garden, yes he does.
He likes nothing better than to put on
his little overalls and his straw hat.
He says, "Let's go get those tools, Jim."
But then doubt begins to set in.
He says, "What is a garden, anyway?"
And thoughts about a "modernistic" garden
begin to trouble him, eat away at his resolve.
He stands in the driveway a long time.
"Horticulture is a groping in the dark
into the obscure and unfamiliar,
kneeling before a disinterested secret,
slapping it, punching it like a Chinese puzzle,
birdbrained babbling gibberish, dig and
destroy, pull out and apply salt,
hoe and spray, before it spreads, burn roots,
where not desired, with gloved hands, poisonous,
the self-sacrifice of it, the self-love,
into the interior, thunderclap, excruciating,
through the nose, the earsplitting necrology
of it, the withering, shrivelling,
the handy hose holder and Persian insect powder
and smut fungi, the enemies of the iris,
wireworms are worse than their parents,
there is no way out, flowers as big as heads,
pock-marked, disfigured, blinking insolently
at me, the me who so loves to garden
because it prevents the heaving of the ground
and the untimely death of porch furniture,
and dark, murky days in a large city
and the dream home under a permanent storm
is also a factor to keep in mind."

James Tate

segunda-feira, Setembro 12

I'm going to kill myself tomorrow

Image hosted by Photobucket.com

wes anderson meets elliot smith meets salinger meets richie tenenbaum meets louis malle meets...

As Setas de João Barrento #8

"A queda de Ícaro" (Pieter Brueghel): a representação mais inesperada deste mito. Quase só mar, natureza e cidade. Primeiro plano: um lavrador indiferente, um pastor a olhar para o céu, mas para o lado errado; atrás dele, na água, mas quase sem se ver, o Ícaro caído. E o pescador que nem dá por ele, o céu amarelado, o Sol aa pôr-se. De Ícaro, o quadro parece não querer saber: é um ponto no canto inferior direito (como que uma assinatura), já caído na água, de pernas para o ar. Natureza e cidade ocupam quase toda a composição. A insignificância de Ícaro contém um sentido filosófico-moral: condena-se a ambição desmedida. Neste quadro, o heroi mítico é um "anti-punctum".

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Words? Music? No: it's what's behind

Image hosted by Photobucket.com

O senhor Leopoldo decidiu ler o "Ulisses" de James Joyce. É um homem empenhado e queria a toda a força perceber a instabilidade (o itálico é dele) da música contemporânea. Quando lhe disseram * que o livro era um caminho possível nem hesitou, meteu logo mãos à obra. Trinta páginas por dia, transpirava, franzia o sobrolho, resfolgava. No fim da batalha não compreendeu nem as palavras nem a música e, para grande tristeza da mulher, passou a comer rins ao pequeno-almoço.

Pancadinhas no borato de sódio #3

Image hosted by Photobucket.com

[|<] [<]
Rita caminhava sempre como se fosse ao encontro da morte ou do amor. Demasiado segura, usava o chão como os deuses usam as sombras para enviar presságios aos homens: deixando horas vazias por onde passava.

Rita não era a mulher da fotografia.[>]

Imagem: de Guy Bourdin. Sugerida por C. | Texto: Sandra Costa

___________
Nota: Na caixa de comentários, há vários caminhos alternativos para esta fotonovela. Esses caminhos poderão continuar a ser explorados nas caixas de comentários, funcionando, digamos, como histórias paralelas. Não excluímos a possibilidade de, a qualquer momento, converter uma dessas "histórias paralelas" na "história oficial".

O único postulado lógico da civilização

"Sófocles? Shakespeare? Nunca saberiam transcrever a fissura que exala este simples fragmento de Casanova: 'Saio mascarado.'"

Miklós Szentkuthy, "À Margem de Casanova".

Conclusão:

O meu mecânico, o Sr. Neves, é um artista moderno: apoia-se nos desperdícios e não nas finas matérias.

domingo, Setembro 11

Cellar Door

Image hosted by Photobucket.com

Karen Pommeroy: This famous linguist once said that of all the phrases in the English language, of all the endless combinations of words in all of history, that Cellar Door is the most beautiful.

As Setas de João Barrento #7

"Adão e Eva" (Lucas Cranach, o Velho): quadro dos mais conhecidos. Mas reparo agora na posição das pernas de Eva (a direita, aliás, muito mal pintada, e o joelho esquerdo não é melhor): com a perna esquerda toda enrolada na direita, como é que ela não cai? Estranho é também o grande alce atrás de Eva (será já uma Diana caçadora? De homens?)

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

sábado, Setembro 10

As Setas de João Barrento #6

"Calvário" (Escola Alemã do Médio Reno, primeira metade do século XV): um Calvário de marca bizantina, fundo a ouro, figuras que parecem uma "collage" do século XX, e um S. Jorge com o dragão à trela! E esta, hein? Mas também já vi coelhos à trela num parque de Stuttgart. E Benjamin lembra que, quando surgiram as primeiras Passagens de Paris, os "flâneurs" elegantes passeavam tartarugas pelas galerias como sinal do ritmo da sua ociosidade.

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

sexta-feira, Setembro 9

Enquanto a chuva não recomeça

Certo dia, um estudante perguntou a Yitzhak de Berdichev, um dos grandes mestres Hassidim, por que razão se encontrava ausente a primeira página de todos os tratados no Talmude Bavli (Talmude da Babilónia), de forma que o leitor era obrigado a começar sempre na página 2. "Porque, por muitas páginas que o estudioso leia", respondeu o rabino, "não deve nunca esquecer que não chegou ainda à primeira página".

(Cf. BENTO, António, "A ideia do Estudo", Revista "Boca de Incêndio", nº 2.)

Figos

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.

...

David Herbert Lawrence, versão de Herberto Helder

Dirty Dictators



Claro que num ditador o que me incomoda mais é a crueldade, a crueldade premeditada. Depois as outras características, por exemplo: a mesquinhez. Isto vem a propósito de um pequeno recorte de jornal sobre o Arquivo Salazar que veio parar às minhas mãos e no qual se conta que numa determinada carta Salazar informava o seu destinatário que "aquele homem não pode ser chefe de secretaria porque é da oposição, tem uma amante e a mulher pinta-se".

E já que falamos em ditadores, convém não perder os Dirty Dictators de THOMAS SCHÜTTE em Serralves (até 25 de Setembro).
Para a série, Frases que impõem respeito [hors série]

Nos dezoito dias que passei na Graciosa entretive-me a coleccionar frases que impõem respeito na ilha. Seleccionei três que explicam o que qualquer turista pode esperar da Graciosa, ou seja: nada ou muito pouco.
Eu, que desprezo alemães barrigudos, japoneses com máquinas, famílias com crianças aos gritos, cheiro a bronzeador em igrejas, que, confesso, sou mais preconceituosa do que pareço, que gosto da ilha assim mesmo, um bocado antiquada e carrancuda, difícil talvez , mas por outro lado tão encantadora, concluindo: acho muita graça às expressões.

(a modos de conselho) Tira o cavalinho da chuva

(o facto consumado) Dar com os burrinhos na água

(com resignação) Traga o que houver

Image hosted by Photobucket.com

As Setas de João Barrento #5

"Apolo e Diana" (Lucas Cranach, o Velho): aquela faixa e aquele laço, a cobrir as partes de Apolo, são pura Arte Nova!

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Estradas secundárias

Aqui Jaz o Jazz

quinta-feira, Setembro 8

A primeira vez que entendi

A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

Affonso Romano de Sant'Anna

Oil on canvas

No dia em que decidiu não dar mais ouvidos a Gauguin, Van Gogh perdeu uma orelha.

Pancadinhas no borato de sódio #2

Image hosted by Photobucket.com

[<]
Tudo começou num café. Não é precisa muita imaginação, basta um café vulgar com paredes vermelhas, sofás escuros, ketchup, maionese, sal e pimenta. Como nesta fotografia; digamos que tudo começou neste café.
Ela era demasiado nova ou então via demasiados filmes... pensava que era só ligar uma jukebox e saiam tangos, tipo romântica... percebem? Mas isso já não interessa, a Rita morreu ontem. Vou reconstituir os últimos dias como pede o contrato e depois desapareço. Posso fumar um cigarro? [>]

Imagem: de Ben Couvillion, 2004. Sugerida por RMA. | Texto: C.

Vários tamanhos

Claro que não há mal nenhum no facto de os "grandes representantes do romance contemporâneo" passarem a vida a escrever poemas de amor, oh, tão belos, puros e castos. E os "melhores poetas vivos" se dedicarem com enorme gosto à crítica literária "de qualidade". E os melhores críticos literários da actualidade consagrarem o seu génio à escrita de dramas e tragédias, "dos mais extraordinários que se escreveram nos últimos anos". E os nossos grandes dramaturgos fazerem carreira como cronistas em jornais de referência e animadores de cocktail. E os cronistas escreverem romances históricos recordistas de vendas e com direito a destaque nos salões internacionais.

Claro que não há mal nenhum nisto. Mas eu prefiro os mortos.

As Setas de João Barrento #4

"Sant' Ana, Virgem e Menino, com Santos" (Mestre da lenda de Santa Úrsula): descubro no rosto da Virgem uma rapariga que vi no dia anterior no comboio! E o menino — parece um "rocker" flamengo de hoje, cabeleira loura, solta, sorriso trocista e atrevido!

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

ich, du

Decidi aprender alemão por causa dos meus escritores. Enquanto as aulas não começam vou ensaiando algumas palavras e frases em casa; para já, a maior dificuldade é ultrapassar a trovoada que se acumula na boca, o alemão tem consoantes a mais e as consoantes são agrestes. A primeira palavra preferida (nem sei se é surpreendente ou não) é Schnee (lê-se chenê). Quer dizer neve mas a mim soa como um cachecol morno. Agarro-me a ela, é esse o meu caminho.

where I belong is on Bourbon Street

Nova Orleães (1946)

...
Certa manhã — julgo que era Dezembro, um domingo frio com um sol cinzento e triste — subi o bairro até ao velho mercado onde, nessa altura do ano, se encontram delicados frutos de Inverno, tangerinas doces, a vinte cêntimos a dúzia, e flores de inverno, poinsetias e camélias brancas. As ruas de Nova Orleães têm perspectivas compridas e solitárias; nas horas mortas o seu ambiente faz lembrar Chirico, e as coisas inocentes (um rosto por trás da luz entrecortada de uns estores, freiras caminhando ao longe, um braço gordo e escuro balouçando languidamente de uma janela, um rapaz negro agachado sozinho num beco, soprando bolas de sabão e observando tristemente a sua ascenção e explosão) adquirem geralmente contornos de violência. Nessa manhã, dizia, detive-me no meio de um quarteirão, porque me apercebera pelo canto do olho, de um túnel, de um jardim deixado ao abandono. Um cão de caça branco com um aspecto alucinado permanecia hirto na luz verde da relva que brilhava no fim do túnel e, compulsivamente, virei nessa direcção. Lá dentro havia uma fonte, a água jorrava delicadamente da boca de bronze da estátua de um macaco e produzia sons de sinos desolados em charcos de seixos. Pendia de um salgueiro: um homem com ar de bandido e cabelo platinado, artificial; pendia tão frouxamente como o próprio salgueiro. Havia terror naquele jardim sufocado e silencioso. As janelas fechadas espreitavam às cegas; as babas dos caracóis cintilavam, prateadas, sobre inhames, nada se mexia a não ser a sua sombra. Balouçava levemente, para trás e para a frente, e todavia não havia vento. Tinha um anel com um diamante de imitação que luzia ao sol, e no seu braço a tatuagem de um nome, «Francy». O cão baixou a cabeça para beber da fonte, e eu larguei a correr. Francy — teria sido por ela que se matara? Não sei N.O. (Nova Orleães) é um lugar secreto.
...

Truman Capote, "Os cães ladram", tradução de Margarida Vale de Gato, Relógio d'Água, Julho de 2002

Livros usados, raros e esgotados

No silêncio da noite encantada
há um aroma a excrementos e um pedaço de lata
que me corta o sapato.

Jorge Eduardo Eielson.
"Naturaleza Muerta", 1958.

[A tradução, lamentavelmente, é minha.]

quarta-feira, Setembro 7

Pancadinhas no borato de sódio #1



Fumando um cigarro, 30 metros acima do solo, Rita observava o cenário. Lá fora, atrás do vidro, tinham construído um espaço em constante mudança: automóveis, néons, cafés e lojas, pessoas e sacos de plástico apressados, uma espécie de terra de ninguém cheia de gente. Os cenógrafos tinham seguido escrupulosamente as indicações da produção da fotonovela. Mas havia um pormenor estranho: no céu estavam pendurados três sóis (Bergman?) Enquanto contava os sóis pela décima quarta vez, um verso irrompeu na sua cabeça: “um rebanho de ruínas pastava no meio da cidade.” Também ela tinha uma história para contar. Qual história? [>]

Imagem: fotograma de “Détective”, de Jean-Luc Godard, 1985. Sugerida por C. | Texto: RMA.

Vamos fazer uma fotonovela?

As regras são poucas e simples:

• Objectivo: divertimo-nos um bom bocado.

• Passo-a-passo –> #1 publicamos uma fotografia e vocês fazem a legenda na respectiva caixa de comentário (por norma não deverá ser muito extensa mas, como excepção, poderá sê-lo) –> #2.1 escolhemos uma das legendas propostas (e, em princípio, apenas uma) para publicação –> #2.2 também pode ser ao contrário, isto é, escrevemos nós o texto e pedimos a imagem ou sequência de imagens (fica a informação gráfica: a largura útil deste blogue é de 660 pixels; as imagens propostas devem ter obrigatoriamente boa resolução) –> #3 e assim sucessivamente até ao fim (que ocorre quando aparecer a famosa sequência: fade + The end).

• A história deverá ter algum rigor e continuidade, por exemplo o nome das personagens deverá manter-se (mas o seu rosto pode mudar) e os factos passados deverão ser sempre considerados na evolução da trama (se a Rita matou o José — nomes fictícios —, o José só poderá voltar a aparecer graças a um flashback que se perceba, isto não é um filme de Ed Wood!) ; podem utilizar todos os truques literários, gráficos e cinematográficos que conheçam (ou que ainda estão por conhecer).

• Royalties: não pagamos a ninguém mas agradecemos todas as participações. Se entretanto surgir algum patrocinador endinheirado, prometemos oferecer uma agradável viagem de balão a todos os colaboradores.

• Ah, e o título? Virá depois, quando menos se esperar. Os dois primeiros posts serão por conta da casa.

• Regras omissas serão tratadas a seu tempo, com o máximo de rigor e seriedade.

• Gostava de acrescentar em letras mais pequenas que a ideia vem de três coisas, desligadas entre si: um poema de e.e. cummings que começa assim "Let's start... e acaba assado squeeze your nuts and open your face; La Jetée de Chris Marker; e uma redacção colectiva em que participei quando andava no ciclo preparatório e na qual, lembro-me bem, introduzi um nariz perdido, sem na altura saber que isso era assunto literário.

strangers talk only about the weather #22

— Ainda é Verão!

As Setas de João Barrento #3

"A injustiça de Otão: Suplício do inocente" (Thiery Bouts, 1415/20-1475): um quadro a dois tempos e em dois planos. O primeiro quadro do díptico mostra o condenado vivo, a caminho da execução, e em baixo, à direita, a decapitação. O segundo quadro ("A prova do fogo") tem também uma composição narrativa que mostra o absurdo da "justiça": em cima, ao fundo, uma fogueira (com bruxa?), em baixo, a mãe ou mulher do executado diante do trono, segurando na mão a barra de ferro em brasa, prova da inocência. Otão erra em três frentes!

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

A noite era bela, a lua brincava sobre as ondas, a barca vogava suavemente. Oh, a poesia! Oh, o amor!

"(...) Na fila à minha frente [no navio que faz a travessia entre o Rio de Janeiro e Niterói], vemos um casal. Eles nem se dão conta de que eu existo. Ela, num rosto sem maquilhagem nem bronzeamentos, volta-se para ele, põe os braços no pescoço, e vai-lhe mordiscando a face. De súbito, esse mordiscar transforma-se em voracidade e começa a a beijá-lo empolgadamente, como quem o quer incorporar em si. É uma fome antiga. Começa então um beijo que me parece interminável (talvez a eles pareça demasiado curto). É um beijo profundo que de repente os atravessa e os cobre, e ninguém sabe quando irá parar. Surpreendo-me a pensar que haverá um momento em que um deles decide que o beijo chegou ao seu termo e o outro aceita que as bocas se separem. É quando eles regressam da nuvem que passava dentro deles. Mas quem decide que acabou? E porquê? Desejaríamos que certos instantes durassem para sempre e a pele tivesse a leveza pura da água."

Eduardo Prado Coelho, no Público de ontem (o texto não está em linha).

terça-feira, Setembro 6

Au Cabaret-Vert cinq heures du soir

Depuis huit jours j'avais déchiré mes bottines
Aux cailloux des chemins. J'entrais à Charleroi.
— Au Cabaret-Vert: je demandais des tartines
Du beurre et du jambon qui fût à moitié froid.

Bienheureux, j'allongeais les jambes sous la table
Verte: je contemplais les sujets très naïfs
De la tapisserie. — Et ce fut adorable,
Quand la fille aux tétons énormes, aux yeux vifs,

— Celle-là, ce n'est pas un baiser qui l'épeure! —
Rieuse, m'apporta des tartines de beurre,
Du jambon tiède, dans un plat colorié,

Du jambon rose et blanc parfumé d'une gousse
D'ail, — et m'emplit la chope immense, avec sa mousse
Que dorait un rayon de soleil arriéré.


Arthur Rimbaud, 1870

Past perfect

regresso às aulas

UMA PEQUENA estação no troço da linha de caminho-de-ferro que leva à Rússia.

O rapaz despede-se dos pais; a cabeça e o corpo em voltas desconhecidas e perturbadoras. Chama-se Törless*...

Image hosted by Photobucket.com

As Setas de João Barrento #2

"Casamento da Virgem" (Mestre do retábulo de Rieden, cerca de 1450): na escultura, a Virgem parece que já vai prenha! Código de época e escola, ou ironia do escultor?

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Mas ainda que mal pergunte: a que propósito vem isto?

Se eu percebesse alguma coisa de decoração de interiores, mudava o coração de sítio.

Os ensinamentos do senhor Vidraça

Perguntaram certa vez [ao licenciado Vidraça] a razão pela qual os poetas, na sua maioria, eram pobres. Respondeu que eles assim o queriam, pois em suas mãos estava serem ricos, se soubessem aproveitar as ocasiões, que constituíam para eles as suas damas, todas elas extremamente ricas, pois tinham os cabelos de ouro, o rosto de prata brunida, os olhos de esmeraldas, os dentes de marfim, os lábios de coral, o pescoço de cristal, e os seus olhos só choravam pérolas das mais puras; mais ainda: a terra que pisavam seus pés, por mais dura e estéril, logo floria em rosas e jasmins, o seu hálito era de puro âmbar, almiscar e algália. Ora tudo isto era sinal e mostra da sua muita riqueza. Estas e outras coisas dizia dos maus poetas, que dos bons disse sempre bem pondo-os nos cornos da lua.

Cervantes, Novelas Exemplares (O licenciado Vidraça).

Já é muito tarde para me pôr com desculpas

Toda a gente se queixa de todo o género de males. Dores aqui, dores ali, os horários dos autocarros, o preço do pão, o défice, o governo, o fim das árvores. E a gramática? E a gramática, senhores? Como podemos nós continuar a viver com a gramática às costas e mantermo-nos passivos? Devíamos era pegar numa navalha e cortar umas quantas fatias daquela suculenta respeitabilidade. Mais do que isso: matá-la. Uma pancada certeira no meio da sintaxe e pronto. Acabavam de vez as más vírgulas e os pontos finais imaginários que nos dão cabo do fígado e dos nervos.

segunda-feira, Setembro 5

Oh stop stop! Here are some lovely blackberries!*

Image hosted by Photobucket.com

"Tem cuidado com as palavras. Breves ou compridas, azuis ou cor-de-rosa, todas elas podem explodir, minha querida", disse o chapeleiro. Mas Alice, cansada de tanto brincar, adormecera há muito e por isso não ouviu o conselho. O senhor Lewis Carrol (que estava distraído a olhar para Alice) também não. Perdeu-se deste modo tão banal a única frase inteligente (mas bastante maçadora, convenhamos) do chapeleiro maluco. "Antes assim", pensou a Lebre e serviu-se de mais uma chávena de chá.

(chá é como quem diz... quando foram ver, era gin tÓnico)

_
*

em vez de la rentrée

vamos ensaiar uma expressão diferente, mais corporal, tipo... La Jetée?



(continua, ou melhor, COMEÇA em breve)

As Setas de João Barrento #1

No fim-de-semana apanhei por sorte (e com mais de um mês de atraso) uma crónica escrita a lápis por João Barrento na qual ele conta como passou uma manhã "sem fazer nada" no Musée des Beaux-Arts de Bruxelas, quer dizer, a olhar para os quadros e a deixar-se apanhar pelas setas mais surpreendentes e belas ou "Puncti" (de "punctum", via "A Câmara Clara" de Roland Barthes). Como ele tão bem explica: uma bela manhã de Verão deixando-nos olhar pelos quadros que vemos, nem mais. Aconselho a leitura integral a quem puder aceder ao jornal. Aos outros reservo as setas propriamente ditas; uma por dia, como as maçãs:

"A Missa de S. Gregório" (Mestre de Flemalle, primeira metade do séclo XV): o frade que ajuda à missa mete a mão debaixo da casula do santo! Parece que lhe apalpa o traseiro — e o ar seráfico de S. Gregório!

João Barrento, "Escrito a Lápis, Mil | Folhas, página 21, 30 Julho de 2005

Quadro de Roy Lichtenstein é alvo de ataque com um canivete suiço

O quadro “Nude in Mirror”, do pintor norte-americano Roy Lichtenstein, foi barbaramente esfaqueado por uma alemã de 35 anos, no museu Kunsthaus, em Bregenz, Áustria, informou hoje a polícia.
De acordo com a mesma fonte, a agressora, com residência em Munique, visitava na tarde de sábado a exposição "Roy Lichtenstein - O clássico do novo", patente naquele museu, quando vandalizou o quadro com quatro golpes, cada um com cerca de 30 centímetros, feitos com um canivete suiço que trazia na carteira. O quadro ainda terá tentado reagir mas sem sucesso. A vítima foi prontamente assistida no principal hospital local. Nas últimas horas, o estado de saúde de "Nude in Mirror" terá registado uma ligeira melhoria, mas o prognóstico é ainda reservado.

domingo, Setembro 4

Remédio santo

As coisas começam a piorar a meio da tarde de domingo. Ao fim do dia iniciam-se uma série de manifestações que não posso explicar sem recorrer à intervenção de poderes desconhecidos. À noite, milhares de pessoas queixam-se de dores abdominais, angústias peitorais, males de coração, falta de ar e suores frios. Trata-se de um problema terrível que afecta uma parte muito significativa da população portuguesa activa e cujos sintomas manifestam-se exclusivamente aos domingos à noite, prolongando-se geralmente pela segunda-feira seguinte.
Ora, atenta a este estranho fenómeno de angústia colectiva, a Antena 2 ofereceu aos seus ouvintes, nesta noite crítica de domingo, uma festiva e alegre patuscada: a oratória “Saul”, para vozes solistas, coro e orquestra (HWV 53), de G. F. Häendel, com o Coro de Câmara da RIAS e o Concerto de Colónia, sob a direcção de René Jacobs. Ainda estou a lamber os dedos. Um exemplo a seguir em termos de serviço público.

P.S.: Entretanto, e já depois de terminado este post, leio num jornal que o Governo está a ponderar uma distribuição massiva de pastéis de nata nas noites de domingo, “de maneira a travar as consequências altamente negativas do ‘síndrome de domingo à noite’ na nossa produtividade”. O Governo ainda não decidiu se esta medida é opcional ou acumulável com as ofertas da Antena 2.

Ouvidos cheios de algodão

Primeiro tapo os ouvidos
com ambas as mãos
para não mais ouvir
o eterno sussurro.

Depois começo a encher
os ouvidos de algodão,
grandes pedaços de esquecimento.
Poderei assim escapar?

Para ficar convencido
de ter achado a solução
corto as orelhas
segundo um método experimentado.

Ei-las diante de mim
como duas conchas de mar,
cheias de eterno sussurro
e de anestesiante algodão.

Lasse Söderberg

Retrato do artista

Enquanto jovem, Joyce passava horas em frente ao espelho a tirar pontos finais da cara.

sábado, Setembro 3

(agosto) na esplanada da Filarmónica:

Image hosted by Photobucket.com


54
Uma esplanada. As duas raparigas conversam. Lívio, sentado entre elas, alheado da conversa que, aliás, não ouvimos, certamente por não interessar por aí além. Começa a ouvir-se Lívio em voz off:

Lívio (off): Naquele tempo, o mundo dos espelhos e o mundo dos homens não se encontravam, como agora, incomunicáveis. Eram, além do mais, muito diferentes: nem coincidiam os seres, nem coincidiam as formas. Os dois reinos, o especular e o humano, viviam em paz; entrava-se e saía-se pelos espelhos. Uma noite, as gentes dos espelhos invadiram a terra. Era muito grande a sua força, mas ao cabo de sangrentas batalhas, as artes mágicas do Imperador Amarelo prevaleceram. Este repeliu os invasores, aprisionou-os nos espelhos e impôs-lhes a tarefa de repetir, como se fora em sonho, todos os actos dos homens.
Privou-os da força e da figura e reduziu-os a meros reflexos servis. Um dia, porém, sacudirão esse letargo mágico. O primeiro a acordar será o Peixe. No fundo do espelho aperceber-se-á uma linha muito ténue e a cor dessa linha não se parecerá com nenhuma outra. Comecarão, depois, a acordar as outras formas. Pouco a pouco, diferenciar-se-ão de nós, pouco a pouco deixarão de nos imitar. Quebrarão as barreiras de vidro e de metal e desta vez não serão vencidas. Com as criaturas dos espelhos as criaturas das águas. Antes da invasão, ouvir-se-á, vindo do fundo dos espelhos, o rumor das armas.

...


Jorge Luis Borges, "Manual de Zoologia Fantástica", tradução de Luiza Neto Jorge, citado na planificação de "Quem espera por sapatos de defunto morre descalço", páginas 163 e 164 de Morituri te Salutant de João César Monteiro, mais um livro da & etc esgotado

sexta-feira, Setembro 2

Literatura avariada em Port Actif

Passei horas e horas em espreguiçadeiras a tentar transformar-me numa máquina shandy. Não consegui, levantava-me muitas vezes para mergulhar e isso incendiava os odradeks. Não, não foi assim. Mergulhar nas profundezas do porto de Dinard é uma viagem para baixo, disse Michaux. Segui com cautela o princípio, sempre para baixo, para além dos peixes e das pedras, mas nada aconteceu. Fiquei, no entanto, com alguns vícios, o que não é mau se não explicar quais são. Desenhar o mapa? Talvez, se houvesse um submarino ou um guarda-chuva. A verdade é que Raymond Roussel nunca saiu do barco e mesmo assim deixou-se impressionar. Não encontrei a Rita Malú.

2 fotografias de Nobuyoshi Araki (em braile)

Para o alívio rápido das dores

A caminho do escritório, entro num café da Baixa e sento-me. Dez minutos. Bebo becket e apanho as migalhas. Ah! Vai ser mais um dia feliz! À sombra dos plátanos de tabaco.

quinta-feira, Setembro 1

ISTANBUL, Aug. 31

An acclaimed Turkish novelist, Orhan Pamuk, has been charged with the "public denigrating of Turkish identity" and faces a possible prison sentence of three years, his publisher said Wednesday.

The charge stems from an interview that Pamuk gave to a Swiss newspaper in February in which he said certain topics were regarded as off-limits in Turkey. As examples, he listed the massacre of Armenians in 1915 and the ongoing war between Turkish security forces and Kurdish guerrillas.
Continua...

Euromilhões

Hoje, durante a hora de almoço, ganhei uma fortuna ao descobrir os textos de Rogelio Guedea, publicados no último número da revista Periférica. Obviamente tirei uma fotocópia e depositei no banco.

lei das compensações



Comecei a trabalhar hoje, estou lenta e sem vontade de estar aqui fechada. Por outro lado, logo à noite há um coelho gigante à solta na cidade.

Sim, encontrei as laranjas *

Não as laranjas da Graciosa que crescem no Inverno. São saborosas, asseguram-me mas nunca as provei em Agosto. Nem as laranjas que comi a meio da tarde na casa encostada ao Monte da Ajuda: frescas, com alguns caroços e pintas na casca, muito sumarentas, não demasiado doces. Mas A LARANJA de Francis Ponge (La parti pris des choses). Tradução de João Bénard da Costa na planificação de "A Sagrada Família", página 192 de Morituri te salutant de João César Monteiro, & etc, Novembro de 1974, terceiro livro requisitado na Biblioteca Municipal de Santa Cruz da Graciosa. As laranjas existem no mar.

Respirem fundo, a descrição provoca vertigens:

11
Dia. Exterior. Travelling óptico, muito rápido, sobre uma laranja colocada em cima do tampo escuro e semi-circular de uma mesa. Fundo de Mar. Coincidindo com o final do movimento óptico (grande plano), começa a ouvir-se, em off, o seguinte texto:

VOZ (off): Como na esponja, há na laranja uma aspiração para se reter, contendo-se, depois de ter passado a prova da expressão. Mas se a esponja consegue sempre, a laranja não o consegue nunca, porque as suas células estalaram, porque os seus tecidos se rasgaram. Enquanto a casca é o único elemento a revestir-se molemente da sua forma, graças à sua elasticidade, vai-se espalhando um líquido de âmbar acompanhado, é certo, de frescura e de perfumes suaves, mas muitas vezes também da consciência amarga de uma expulsão prematura de caroços. Será preciso tomar partido entre estas duas maneiras de mal suportar a opressão? Toda a esponja é apenas músculo, e se enche de vento, e ora de água limpa e ora de água suja: esta ginástica é ignóbil. A laranja tem um sabor melhor, mas é excessivamente passiva, e esse sacrifício odorante é tratar demasiado bem o opressor. Mas não se disse tudo da laranja se se falou apenas da sua particular maneira de perfumar o ar e de dar prazer ao carrasco. É preciso acentuar a coloração gloriosa do líquido que daí resulta e que melhor que o sumo de limão obriga a laringe a abrir-se largamente, tanto para pronunciar a palavra como para ingerir o líquido, sem qualquer movimento de apreensão da boca anterior, cujas papilas não faz crispar. Para além disto, não há palavras para falar da admiração que merece o invólucro da terna, frágil e rósea bola oval, nesse espesso tampão mata-borrão húmido cuja epiderme, extremamente ténue, mas muito pigmentada, acerbamente sápida, só tem a aspereza exactamente necessária para unir dignamente a luz à forma perfeita do fruto. Agora, no termo deste estudo demasiado breve e demasiado genérico, é preciso regressar ao caroço. Esse grão, com a forma de um minúsculo limão, apresenta, visto de fora, a cor do tronco branco do limoeiro e, visto de dentro, um verde de ervilha ou de rebento tenro. É nele que se reencontram, depois da explosão sensacional da lanterna veneziana de sabores, cores e perfumes, que constitui a própria bola-fruto, a dureza relativa e a verdura, aliás nunca inteiramente insípida, do tronco, do ramo, da folha. Não é muito, mas é concerteza a razão de ser do fruto.

Agora, Tchekhov

TCHEBUTÍKIN - (cantando baixinho) Tá-rá-rá búmbia… sijú ná tumbe iá… (Lendo o jornal.) Isto tudo, que importância tem? Que importância tem isto?

OLGA – Se nós soubéssemos, se nós soubéssemos!

PANO

Anton Tchekhov, Três Irmãs.
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

Isto não é um post

A meio da noite, pegou num martelo e desatou a bater nas paredes do quarto. A princípio com meticulosa cadência. Depois, tomado pelo desespero, de forma desordenada. Abriu buracos por toda a parte. Tentou tudo. Mas não conseguiu pregar olho.