sábado, Maio 31

Terrível de dizer! Terrível de ver!

[Dou mais um passo atrás, desta vez por causa de Antígona e Ismene, até "Sete contra Tebas", de Ésquilo (tradução de Manuel Resende segundo as versões de Herbert Weir Smyth e Paul Mazon). Entretenimento de fim-de-semana, para ler em voz alta e assustar os vizinhos, o mundo:]

...

Hemicoro A
Antígona
Ferido, feriste.

Hemicoro B
Ismene
Mataste, mataram-te.

Antígona
Com ferro mataste.

Ismene
Com ferro morreste.

Antígona
Causaste infortúnio.

Ismene
Infortúnio sofreste.

Antígona
Lágrimas correi.

Ismene
Correi, ó lamentos.

Antígona
Aí estás tombado.

Ismene
Depois de o tombares.

Antígona
Ei.

Ismene
Ei.

Antígona
Minha alma enlouquece de gemidos.

Ismene
Cá dentro geme o meu coração.

Antígona
Ai, digno de todas as lágrimas.

Ismene
E tu, vítima de todos os males.

Antígona
Matou-te um dos teus.

Ismene
Mataste um dos teus.

Antígona
Dupla dor de dizer.

Ismene
Dupla dor de ver.

Antígona
..................................................

Ismene
..................................................

Ambas
Ah, Parca das tristes sinas,
Poderosa sombra de Édipo,
Negra Erínia, que forte és!

Antígona
Ei.

Ismene
Ei.

Antígona
Desastre medonho!

Ismene
Trouxe-mo do exílio!

Antígona
Mas não voltou, mesmo matando!

Ismene
Mas, ao voltar, já estava morto!

Antígona
Sim, ei-lo morto!

Ismene
Mas matou este aqui!

Antígona
Terrível de dizer!

Ismene
Terrível de ver!

Antígona
..................................................

Ismene
..................................................

Ambas
Ah, Parca das tristes sinas,
Poderosa sombra de Édipo,
Negra Erínia, que forte és!

Antígona
Conhece-la pois a provaste...

Ismene
E tu não a conheceste mais tarde...

Antígona
Ao regressares a Tebas.

Ismene
Remando com a lança em frente ao outro.

Antígona
Ai infeliz linhagem...

Ismene
... de penas carregada!

Antígona
Ai, dor!

Ismene
Ai, infortúnio!

Antígona
Para o teu lar, a tua terra...

Ismene
... e para mim!

Antígona
Ai, ai, rei das dores infaustas!

Ismene
Ai, infeliz entre os infelizes!

Antígona
Ai, possessos da Ruína!

Ismene
Ai, onde enterrá-los?

Antígona
Onde possam ser mais venerados!

Ismene
A sua miséria vai pois enterrar-se junto ao pai!


sexta-feira, Maio 30

É preciso procurar na terra e no vasto dorso do mar,
ó Cirno, a libertação da dolorosa pobreza.


de Teógnis, tradução de Frederico Lourenço, "Poesia grega — de Álcman a Teócrito", cotovia

SUK, Dr. Isailo

Acordou, numa manhã de Abril de 1982, com os cabelos sob o travesseiro e uma ligeira dor na boca. Magoava-o qualquer coisa dura e denteada. Meteu dois dedos entre os dentes e, como se retira um pente do bolso, tirou da boca uma chave.

Milorad Pavic, Dicionário Khazar - Versão Masculina. Tradução de Herbert Daniel.

Bab Sebta significa "a porta de Ceuta"

Há um poder incomensurável nas palavras; dizer é marcar a nossa presença no mundo. Bab Sebta devolve a palavra às pessoas mais desprotegidas, os novos aventureiros africanos que cruzam o mar em busca de condições de vida dignas (o meu segundo filho vai nascer em Itália e o terceiro na América — ah sim, é uma alegria desconhecida para nós: eles não têm medo do fim, ele têm muitos filhos). As suas palavras nascem de sentimentos muito fortes e são justas e claras, não se enredam em metafísicas de pacotilha. Quando um homem sentado numa tenda num bosque (deus não está no bosque) descasca uma laranja e diz "a vida continua" — sentimos como isso é verdadeiro; eles sabem o que querem, eles não vão desistir, nem que electrifiquem o mar. Oh, não é coisa pequena filmar estes homens lúcidos. Um dia eles vão construir uma nave.

O filme será exibido no dia 20 de Junho, às 22h00, no Cineteatro Municipal de Serpa.

Gato branco e preto com bigodes verdes

Um homem tinha três gatos. Um branco, um preto, e um branco e preto. O gato branco era mau, o preto era bom, e o branco e preto era assim-assim. Para atenuar as diferenças e promover a boa convivência, o homem pintou de preto os bigodes do gato branco, de branco os bigodes do gato preto, e de verde os bigodes do gato branco e preto. O gato branco com bigodes pretos e o gato preto com bigodes brancos ficaram com muitos ciúmes do gato branco e preto com bigodes verdes. E este ficou com ciúmes daqueles por outras razões. Os ciúmes eram tantos e tão variados que o homem foi tomado de uma febre terrível e começou a cuspir bolas de pêlo. Morreu num ápice. Os gatos enterraram-no no sótão.

quinta-feira, Maio 29

O soberano tolerante

O Ganmdoodle de Moop convocou o seu Ministro da Guerra para lhe dizer:
- O senhor não deve ignorar os clamores de reprovação que os meus súbditos soltam contra si. Consideram-no um refinado patife.
- Creia, Vossa Majestade, que se trata de uma calúnia - respondeu o Ministro.
- Agrada-me muito ouvir essa afirmação - declarou o Gamdoodle.
Dito isto, levantou-se, para indicar que a audiência havia terminado. Mas, vendo que o seu interlocutor se mantinha imóvel, prosseguiu:
- Tem ainda alguma coisa a acrescentar?
- Sim, Majestade. Quero entregar-lhe a minha pasta; o clamor público é falso, mas não é injusto: eu, na verdade, não passo de um imbecil.
Aqui, o Gamdoodle consentiu em sorrir, para declarar, cheio de benevolência:
- Meu bom amigo, vá retomar as suas funções; nesse ponto, pareço-me muito consigo.

Ambrose Bierce, Fábulas Fantásticas. Tradução de João da Fonseca Amaral.

quarta-feira, Maio 28

os rapazes e o cinema



Goodbye South, Goodbye já chegou a casa, o que me dá hipótese de voltar a Hou Hsiao-hsien para ajustar algumas contas perdidas. Começo por descrever uma das minhas cenas favoritas d' Os rapazes de Fengkuei: Os três rapazes vão pela rua quando são abordados por um tipo de mota que lhes tenta vender bilhetes para o cinema: filmes eróticos, europeus, em écran grande, a cores (un monde qui s'accorde à nos désirs). Os rapazes hesitam, mas o homem insiste e consegue fechar negócio. Indica-lhes o 11º andar dum prédio devoluto — é mesmo assim, justifica, é o melhor sítio para actividades clandestinas longe da polícia. Lá em cima, os rapazes encontram apenas as paredes em bruto de um prédio (abandonado ou em construção?) e um buraco enorme, rectângular, aberto sobre a cidade.
«Nós não atravessamos fronteiras, as fronteiras atravessaram-se entre nós.»

BAB SEBTA de Federico Lobo e Pedro Pinho. Amanhã às 22h00, no Passos Manuel.

sistemas e técnicas de movimentação — capítulo 3 (dúvidas teóricas)

— Podemos ser ao mesmo tempo o que está em jogo e o que vê o jogo?

A feira

«Um brilhante plano fixo. Mostra (se ainda fosse preciso – mas é sempre preciso insistir no básico) que a questão central no cinema não é a montagem mas o enquadramento».
Manoel de Oliveira [****]

«An outstanding coreography, and only with his hands! Kind of reminded me of some of those Kung Fu classics from Hong Kong».
Quentin Tarantino [*****]

«Ça vient nettement de «La chinoise». Cinéma didactique pour les masses intello-ouvrières!»
Jean-Luc Godard [****]

Veja o filme aqui.

o sombra

Os grandes clássicos da literatura disponíveis na rede e em português com a colaboração dos melhores tradutores. Aqui.

Eis as primeiras linhas de "A Festa", de Tchékhov.

"Depois de o jantar festivo com seus oito cursos e seu infinito conversação, Olga Mihalovna cujo o nome-dia de marido estava sendo, célebre, saiu no jardim. O dever de sorrir e falar incessantemente, o ruído da louça de barro, a estupidez do criados, os intervalos longos entre os cursos, e as permanências ela tinha vestido para esconder a condição dela das visitas, a cansou para esgotamento. Ela desejou para adquirir longe da casa, sentar dentro o sombra e descansa o coração dela com pensamentos do bebê que era ser nascido a ela em outros dois meses."

terça-feira, Maio 27


O pensamento artístico começa com a invenção de um mundo possível, ou de um fragmento de um mundo possível, para o confrontar, pela experiência, pelo trabalho — pintar, escrever, filmar —, com o mundo exterior. Este diálogo sem fim entre a imaginação e o trabalho permite que se forme uma representação sempre nítida daquilo a que convencionamos chamar realidade.

Anne-Marie Miéville, Old Place (mais ou menos ao 30º minuto)
Não te faças nenhum mal, que ainda estamos todos aqui." Duas vezes citada em Os Sonâmbulos, é com esta passagem que o romance se conclui, com a imagem de uma comunidade por desenhar, uma comunidade nem sequer profetizada, que se solta da boca e fica presa entre as palavras que foram pronunciadas para acalmar um gesto de perdição, para dar assistência àquele que foi tomado de pavor pela vida. Maria Filomena Molder, "O Absoluto que pertence à Terra", Vendaval, 2005

Tu dir kein Leid!

... Podemos estar rodeados pelo mutismo sempre crescente do Abstracto, o homem pode muito bem ser a presa da mais gelada peia, projectada no Nada, o seu Eu projectando fora, é mesmo assim o sopro do Absoluto que varre o mundo e do pressentimento e do sentimento tacteante da verdade brota e cresce a segurança de dia de festa e de feriado que nos adverte de que cada um traz consigo a pequena centelha no fundo da sua alma e que a unidade não pode perder-se. Não pode perder-se. Não pode perder-se a fraternidade da criatura humana humilhada, de onde brilha, do fundo da mais profunda das angústias, sem nunca poder perder-se, a angústia de uma graça divina, unidade do homem que lança um clarão em todas as coisas, por cima dos espaços e dos tempos, unidade em que toda a luz tem a sua fonte e santificação da vida — símbolo de símbolo, espelho de espelho, emergindo da existência que se precipita nas trevas, jorrando da loucura e da ausência de sonhos como uma vida maternal que nos é dada, vida arrancada ao desconhecido e reencontrada, arquétipo do símbolo; na sublevação do Irracional, apagando o Eu e rasgando os seus limites abolindo o tempo e a distância; no tufão de vento gelado, na tempestade do desmoronamento, todas as portas se abrem brutalmente, os alicerces da prisão estremecem e das trevas mais opacas do mundo, das nossas trevas mais amargas e mais opacas o apelo chega ao homem em desgraça, a voz que une o que foi com todo o futuro e a solidão com todas as solidões e não é a voz do terror, a voz do Juizo Final; hesitante, ressoa no silêncio do Logos, sendo suportada por ele, elevada acima do ruído da não existência, é a voz do homem e dos povos, a voz da consolação, da esperança e da bondade imediata: «Não faças mal, porque ainda aqui estamos todos.»

Viena, 1928-1931


Hermann Broch, (as últimas palavras de) Os Sonâmbulos - volume III, Huguenau ou o Realismo, [Degradação de Valores (10) Epílogo]

nous sommes tous encore ici.

A cama já está montada, vai ser bom dormir sobre um colchão macio à noite. Sem querer, a leitura de "Os Sonâmbulos" tornou-se mais física e dolorosa do que eu pretendia. Não há consolo nenhum no livro, e no entanto há qualquer coisa mais importante. Hermann Broch escreve de uma forma que nos faz sentir o invisível e as ligações de tudo a tudo, assim como Godard, precisamente como Godard — era aqui que eu queria chegar, ao ponto de partida, à Biblioteca de Alexandria. O incêndio.

The 10 Craziest How-To Books You Never Knew Existed

How To Shit in the Woods
How To Have Sex in the Woods
How To Be Pope
How To Start your Own Country
How to Be Happy Though Married
How to Rent a Negro
How To Lose Friends and Alienate People
How To Become A Schizophrenic
How To Read a Book
How to Speak with the Dead

Aqui.

Intrusão

A Moral meteu o dedo grande do pé na política internacional, e ficou logo sem ele.
- Mil agradecimentos - declarou a Diplomacia, fazendo uma graciosa vénia. - Vamos conservar este dedo como recordação de uma grande honra.
E, a partir daí, a Moral passou a manquejar um tanto.

Ambrose Bierce, Fábulas Fantásticas. Tradução de João da Fonseca Amaral.

segunda-feira, Maio 26


Uma frase que Heinrich diz a Hanna (p. 202):
— Estamos todos como que passados por uma peneira... pulverizados.

Mais à frente, numa sequência de aforismos, Broch descreve algumas personagens do livro, precisamente o seu ponto mais interior e fugidio (tão semelhante a um pequeno mecanismo dentro uma máquina complexa). «Hanna Wendling desejava que as coisas tivessem um equilíbrio aéreo, em que o símbolo regressa à origem, como num poema.»

§


Jaretzki está no hospital a recuperar da amputação do braço esquerdo. Bebe e fala muito, fala quase sempre da solidão que nos rodeia — uma solidão densa e sem salvação. Durante um curto passeio com a enfermeira Mathilde, desfaz as ilusões do regresso:
— Sabe, menina Mathilde... não bebi absolutamente nada, mas esta é a minha mais íntima convicção: voltar, realmente, cada um para sua casa, isso e mais nada, não creio que seja permitido a ninguém.


aranhamaia, Viagem Nova Iorque, Galeria Por Amor à Arte.

domingo, Maio 25

Autocarro Bukowski.

Bilhetes à venda aqui.
E assim os dois seguiam estrada fora em silêncio (p. 201). Sim, há qualquer coisa assustadora no livro, pode ser Huguenau, ou o que ele simboliza, não tenho a certeza. Ou será Esch? Afinal de que(m) é que temos medo? Não é de nós próprios? (mas de que parte de nós? do que fomos, do que somos, ou do que poderemos vir a ser ou a não ser?) A ignorância e a fragmentação são terríveis. Às vezes tenho de parar, porque a leitura é já demasiado insuportável — deixa-me confusa e um nó na garganta, como se estivesse prestes a cair num buraco (estávamos num porto, num subterrâneo, numa cave, numa catacumba). Broch brinca com o fogo. Levanto-me e vou lavar uma camisola. Amanhã continuo o trabalho.
Porque, faça o homem o que fizer, tudo o que faz tem por fim anular o tempo, suprimi-lo, e esta supressão chama-se espaço. Até a música, que existe apenas no tempo e que enche o espaço, transforma o tempo em espaço, e a teoria com mais verosimilhança é que todo o pensamento se realiza no espaço e que o processo do pensamento representa uma amálgama de espaços lógicos de múltiplas dimensões, indizivelmente complicados.

Hermann Broch, Os Sonâmbulos - volume III, Huguenau ou o Realismo, [Degradação de Valores (3)]

sábado, Maio 24

colapso da forma tubular



Com a abertura dos frutos ocorre perda de água com grande rapidez, provocando a contração das fibras sobre si. Há colapso da forma tubular, com achatamento das fibras que assumem, na sua seção transversal, a forma característica de grão de feijão. Aparecem, ao longo das fibras achatadas, os pontos de reversão ora para um lado ora para o outro, conferindo-lhes a sua qualidade de fiabilidade. (Capulho de algodão aberto — fibra madura, wikipédia)

Наша музыка

Ontem à noite, antes de adormecer, lembrei-me de uma música, não, lembrei-me apenas do título: "Attached to a pattern". Não faço ideia do que se trata, mas sei que esconde uma ideia importante.

§

Ah, um tango-papirossa dá-me para todo o dia. Obrigada Filipe. Будем здоровы!

(cont.)

Logo de manhã, trovoada e chuva forte. Depois passa o homem que amola as facas e conserta os guarda-chuvas. Cruzo-me com ele à porta de casa: é moreno, alto, magro, olhos sonolentos; tem ar de quem anda a cavalo — um salteador.

sexta-feira, Maio 23

Strangers talk only about the weather #87

Chuva regular, por vezes forte. É preciso calçar as botas. Ligeira melhoria à tarde (aguaceiros esparsos). Sapatilhas para chafurdar nos jardins do Palácio (sem pregos). A instabilidade por todo o lado. Nein, in Deutschland ist das Wetter besser (lassen wir heraus, um den echten Mann ohne Eigenschaften zu finden).

quinta-feira, Maio 22



— Sabe-se lá... Ainda teria outras coisas em que me ocupar... Nunca ninguém o viu pegar num livro, Jaretzki.
— Ora diga-me cá, mas com toda a franqueza, o senhor lê, realmente, todos esses livros que tem para aí, a cada canto do quarto?
— Leio.
— É formidável! E isso tem qualquer sentido ou qualquer objectivo?
— Nenhum.


Diálogo entre Jaretzki e o Dr. Flurschütz, "Os Sonâmbulos — volume III Huguenau ou o realismo", de Hermann Broch, Edições 70

quarta-feira, Maio 21

old place

Na loja ikea de Matosinhos há uma estante cheia de livros. Entre os livros, uma tradução sueca de Hamlet. Acho que Godard gostaria de saber isso. Não, há muito tempo que Godard sabe.

terça-feira, Maio 20

vidros bonitos



Hoje às dez da manhã, na paragem de autocarro junto a minha casa, um homem e uma rapariga comiam cerejas. Tinham um ar muito satisfeito.

§

A professora queria saber onde estava a modernidade da Casa de Serralves. Uma miúda disse: "tem vidros bonitos". A professora não entendeu nada: "vidros bonitos ou muitos vidros? Deviam ser três ou quatro horas, eu estava deitada debaixo de uma árvore a uns metros, com "Os sonâmbulos" debaixo da cabeça (voltar com o fio à meada). Sabia a resposta, mas fiquei calada a fumar um cigarro.

§

Ah, o mundo moderno... 1ª ou 2ª classe?

§

Herman Broch não era só escritor. De momento é isso que me interessa (o não ser).

§

(Sente-se humidade na sala, e o cheiro do cloro. Quando a água pára de correr, os peixes agitam-se como o vento antes da tempestade explodir. A ciência explica isso de outra forma.)

segunda-feira, Maio 19

os movimentos do coração

Robert Walser gostava de romances de cordel, comprava-os nos quiosques e lia-os com mais entusiasmo do que as obras sérias da literatura. Talvez por um pouco de despeito, mas sobretudo por prazer e delírio amoroso. Os traços mais vulgares transbordam das suas histórias: há sempre um rapaz e uma rapariga, ou um homem e uma mulher, ou dois homens e uma mulher, ou... — e nas suas faces brilha, verdadeiro, o lustro fácil do cordel. Mas inesperadamente, surge qualquer coisa no percurso que altera, ou desfaz, tudo isso; como é o caso da confissão de Marie, a rapariga que vive numa ruazinha lateral na cidade e se refugia na floresta. Então deixamos de perceber quem é Walser, e então começa.
As primeiras cerejas.

A lição ético-política da Ovelha Negra: notícias de Cannes

domingo, Maio 18

apanhada numa teia

É uma das cenas mais invulgares e íntimas do filme. Keiko está na cama, em casa da mãe (uma casa pequena de um bairro pobre, que faz lembrar ainda Tóquio antiga), a recuperar de uma úlcera.
A exiguidade do espaço é opressiva, a cama ocupa quase toda a divisão e domina os enquadramentos. Keiko escreve umas notas num caderno que esconde debaixo da almofada. A patroa vem visitá-la; traz sopa de tartaruga, oferece-lhe dinheiro para fruta, e, sem o mencionar, apressa-a a regressar ao trabalho. A mãe dá-lhe cabo da cabeça, ora pedindo-lhe dinheiro para resolver os problemas do irmão, ora criticando-lhe as extravagâncias: o apartamento caro, os perfumes, o quimono de seda...
Um cliente aparece com um cesto, ela não o recebe — sente-se profundamente cansada.

lugares comuns




Chove. Os pássaros debicam o chão. Há um velho filme de Kenji Mizoguchi que se chama Samidare zoshi (Crónica das chuvas de Maio, segundo as folhas da cinemateca). Em português, a palavra estação também designa o sítio onde os comboios chegam e partem (lembrei-me disso ontem, ao ver as últimas cenas de "Quando uma mulher sobe as escadas"). Os italinos dizem stagione.

XXXVII. Controvérsia teológica

— Desde Juliano que os deuses nos abandonaram, diz C. Bassus.
— Desde Augusto que Deus nos abandonou, diz M. Polio.
— Desde Numa que os deuses nos abandonaram, diz Ti. Sossibianus.
— Deus abandonou-nos desde sempre, conclui P. Saufeius.


As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia, capítulo II (fólio 485 r° a fólio 490 r°), por Pascal Quignard, tradução de Ernesto Sampaio, Cotovia, [guardar em: os movimentos de deus ao domingo]

sábado, Maio 17

caligrafia, gesto


Encontrei estas bonitas fotografias de Michaux, no blog gramatologia, de amir brito cadôr. Surrupiei-as.

"J’écris pour me parcourir", diz ele

Acordei ensonada (eu e as nuvens). Fui à baixa fazer uns recados. Em cima do balcão dos livros, uma linha invisível, oblíqua, entre o Diário 1941-1943 de Etty Hillesum (a pequena tarja azul violeta de Etty tem a cor da chávena que desde miúda tanto me perturba; na introdução, de novo, aquela palavra de Anna Akhmátova) e uma via para a insubmissão de Henri Michaux (é um manual de geografia de bolso, mais ou menos clandestino, obrigatório). Fiz-me desentendida e vim embora.

Strangers talk only about the weather #86

Mizoguchi filma os monogatari sem afectações, como a minha avó contava as histórias: tudo é visível, tudo é palpável, tudo é possível. A isso eu chamo realismo.

sexta-feira, Maio 16

Caravana em Braga. Amanhã, 17 de Maio, 18h00.



APRESENTAÇÃO DE "CARAVANA" EM BRAGA.
Amanhã, sábado, 17 de Maio, 18h00.
Livraria Centésima Página (Av. Central nº 118-120).
Apresentação a cargo de Luís Mourão com leitura de contos pelo autor.
Mais informações sobre o livro aqui.

"Caravana" no webboom.
"A Livraria Poetria não consegue mais prosseguir o seu caminho sozinha. Por implacáveis e nada poéticas razões: a sua (crónica) fraqueza financeira, sempre no limite da resistência, que tornou insuficiente a força da sua imagem, identidade, competência profissional, atendimento de excepção.

Apesar de ter cumprido, na sua tão curta vida (5 anos) pelo menos um dos seus mais importantes desígnios: contribuir para divulgar e induzir num grande número de pessoas o gosto (e até mesmo o vício) da poesia e do teatro, estas artes admiráveis que sem o sabermos nos tornam mais humanos, mais refinados, mais livres, mais atentos a este nosso mundo.

Porém, este continua a ser um bom projecto. O que teria acontecido se TODOS os que compram livros de poesia e de teatro o tivessem feito aqui? Mas também, convém dizê-lo, quantos aqui vieram e não encontraram o livro que procuravam? Os editores e distribuidores sabem do que estamos a falar.

Basta que uma só pessoa o queira e possa para a Poetria continuar a existir - com a forte identidade que granjeou, os laços que criou, o seu logo inconfundível, com um conceito e um potencial para conquistar rapidamente estatuto de marca nacional.

É convicção da Poetria que apenas lhe faltou 'um pouco mais de azul' para voar... Esse 'azul' pode ser em forma de participação no capital, investimento, coragem, criatividade. Ou 'outra vontade inteligente', como diria o imenso Herberto Helder.

Parafraseando Mário de Carvalho, 'era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto'.

A Poetria fica à vossa espera. Até lá, o sonho continua."

A Livraria Poetria fica na Rua das Oliveiras, junto ao Teatro Carlos Alberto.

DH: Os contos da Lua Vaga...
DH: Não acenda a luz, por favor!
JMS: Não vou acender, vou-me embora!
Você já não me quer cá!
Adeus!
Isto é o fim de qual filme do Mizoguchi?

quinta-feira, Maio 15

A bicicleta de Menno Zutphen

Menno Zutphen não sabia nada da vida. Também não sabia muito acerca do mundo. Um dia montou na sua bicicleta e partiram juntos. Estavam decididos a conhecer o mundo e a desvendar os insondáveis mistérios da existência.
Ora, pouco depois de partirem, começou a chover e um vento frio soprou de vários pontos cardeais*. Zutphen correu para casa a abrigar-se. Comeu sopa de abóbora e deitou-se a dormir, feliz, ainda que um pouco cansado.
A bicicleta, por sua vez, não se rendeu aos desagradáveis caprichos da natureza. E mesmo abandonada por Zutphen**, seguiu viagem para Moscovo.


* O tempo muda miraculosamente, como se a natureza quisesse dar-nos um espectáculo permanente, servindo-se de subtis mudanças de cenário.
** Quem o quiser que o compre!

quarta-feira, Maio 14

Força e fraqueza

...
Ela: Não és tão forte nem tão fraco como eu pensava.
Ele: Se não te importas, dá-me mais uma cerveja.



Robert Walser, Histórias de Amor, tradução de Isabel Castro Silva, Relógio d'Água, Abril 2008

Posters de Jean Jullien

terça-feira, Maio 13

that's all folks!

A ligação a Hölderlin é evidente. Sem entrar nas questões íntimas, circunscrevendo-me apenas à literatura, e resumindo em extremo: o verso Freundliches Lachen ist auch nicht ferne percorre quase todas as histórias de Walser. Mas há outras influências — se é que posso dizer assim descaradamente, influências — menos sérias. Lembram-se daquele efeito dos desenhos animados; quando menos se espera sai um martelo de trás das costas, uma bomba do bolso, ou um bolo coberto com chantilly de onde calhar? Bom, a seu jeito, Walser faz mais ou menos isso. O rapaz Gaspar ou Pedro ou Simão vai a andar por uma estrada e encontra um palácio, e no palácio uma princesa, e no quarto da princesa um traje de pajem, e por aí fora. E agora, parafraseando Walser, se em vez de um autor, eu fosse uma autora, escrevia já a seguir e de um jacto dois volumes inteiros sobre tão doce matéria.

segunda-feira, Maio 12

Por duas vezes,

Lilie (Clotilde Hesme) olha para nós. No primeiro plano diz "Bernardo Bertolucci", depois de ter perguntado a alguém se conhecia o filme Prima Della Rivoluzione. Na segunda vez está sentada na cama junto a François, vira-se e explica-nos: "la solitude qu’il y a dans le coeur de chaque homme, c’est incroyable".

Caravana em Braga. Próximo sábado, 17 de Maio, 18h00.



Apresentação do livro "Caravana" em Braga.
Sábado, 17 de Maio, 18h00.
Livraria Centésima Página.
Com apresentação de Luis Mourão e leitura de contos pelo autor.

Mais informações sobre o livro aqui.

"Caravana" no webboom.

aquilo que presumes

As sessões de "O sabor do cinema" destinam-se também a um público mais jovem (terças às 14h00), por isso a folha de sala tem sempre algumas "propostas de exploração pedagógica da sessão" — pistas simples para pensar no filme para além da projecção. Gosto de ler essas propostas e no caso d' "O Desprezo" de Jean-Luc Godard (que bom que é vê-lo num écran grande!), gosto particularmente do ponto dois; é o tipo de exercício que se pode fazer à noite, na cama, em vez de contar ovelhas.
2. Imagina o que passa pela cabeça de Brigitte Bardot durante os seus longos banhos de sol e constrói, a partir daquilo que presumes, um texto com a forma de um monólogo interior.

domingo, Maio 11

et voilà


Une fois le mépris pour Paul entré en elle, il n'en sortira pas, car ce mépris, encore une fois, n'est pas un sentiment psychologique né de la réflexion, c'est un sentiment physique comme le froid ou la chaleur, rien de plus, et contre lequel le vent et les marées ne peuvent rien changer; et voilà en fait pourquoi le Mépris est une tragédie. jlg

sábado, Maio 10

sim, a capa é feia

Comi uma taça de arroz doce com muita canela e sentei-me a ler as histórias. Tenho um problema nos olhos, o excesso de luz magoa-me e não páro de chorar — um choro miúdinho que até vai bem com os textos. Cheguei à página 27 e reconheci tudo — em tempos traduzi "O Barco" (nur eine Skizze), a partir da versão inglesa de Tom Whalen —... mas agora faltava qualquer coisa. Por exemplo nesta frase:

A tradução de Isabel Castro Silva, correcta e, espero, o mais literal possível:
É magnífico ver como o luar se parece com um amante, afogado em prazer, e como a água se parece com a feliz amada, que abraça e afaga o seu príncipe bem-amado.

O meu devaneio:
É uma maravilha! A lua parece um apaixonado afogado em prazer e o lago, a feliz dama que abraça e cinge o seu nobre amado.

As diferenças são evidentes (até o ponto de exclamação inventei!), tomei o partido de Tom Whalen e forcei a inversão de géneros: a lua convertida em apaixonado, o lago em dama. É uma pena estar errada pois há no erro uma certa verdade. Para além disso, bom... o livro é tão comovente que até custa a ler.

"En construcción", de José Luis Guerín

Dois homens, que trabalham na demolição do velho bairro El Chino e na construção dos novos edifícios, falam sobre "Terra dos Faraós", de Howard Hawks. É a hora do almoço, eles estão sentados a uma mesa de campanha, no estaleiro das obras; comem, bebem e conversam. Se não me engano, há mais duas referências a filmes antigos que passam à noite na televisão — "Zorro" e "Miguel Strogoff" — mas Guerín mostra-nos apenas o de Hawks, porque apenas esse é necessário; mostra-nos as cenas finais — quando a pirâmide se fecha, encerrando o faraó morto e a raínha viva —, através da janela de uma dessas casas degradadas que vai ser demolida.

Voltando ao que importa: a pausa a meio do trabalho, a comida, o vinho, e a conversa. A estes homens interessa o que conhecem, os materiais, a construção, o modo fantástico como o arquitecto concebeu um mecanismo tão simples — ou tão complexo? nem sei dizer — e eficaz. E falam, maravilhados, do modo como as pedras eram talhadas uma a uma e transportadas sabe-se lá como e depois encaixadas numa ordem perfeita e eterna. Há algo, tem de haver algo, de iluminado, diz um deles. Ah, se pudessemos falar assim dos filmes.

E ainda. Nas casas velhas, as mulheres estendem a roupa (uma rapariga aproveita para namoriscar um rapaz das obras). Não sei explicar (nem quero), mas sinto que esta roupa pendendo das pequenas varandas, junto aos vasos e aos estores, também é muito importante para o filme (ver nota sobre o branco, sobre o silêncio e sobre a imobilidade).

sexta-feira, Maio 9

Fading Hutongs, Beijing 2006

«Os hutongs são apenas os caminhos estreitos que dão passagem às diversas siheyuan onde a lei mandava haver espaço para cultivar uma árvore. É a passagem que situa o aglomerado familiar — uma ruazinha que pode ter de largura, até 6 metros ou apenas um. Tal como as casas de pátio se conectam umas com as outras formando blocos, também os hutong, que se estendem por um máximo de 9 metros, se vão conectando, por vezes de esguelha, transformando-se, para o estranho, em estreitos e sinuosos labirintos. Quem conhece o ritual sabe que progridem nos eixos este/oeste ou norte/sul, para que as habitações olhem sempre para sul.
Nos últimos anos, nos hutongs, abriram-se lojas de comércio e de lazer, restaurantes e cafés ou cabeleireiras que prestam outros serviços — afinal o hutong define a vida intensa que representa a sobrevivência popular.» Maria do Carmo Serén, CPF

Krzystof Lojewski

Era um homem vazio. Oco como um barco. Quando sentia frio enchia o bandulho de palha e engolia fogo. Quando sentia calor embuchava gelo até ficar completo como uma arca frigorífica. Para matar a fome comia pedras. Não uma, mas muitas. Também engolia pedras nos dias de vento. Quando tinha sede emborcava água como um elefante. Quando sentia vontade de transformar canários em profetas e dar concertos de harpa sem instrumento, não fazia nada. É impossível transformar canários em profetas e dar um concerto de harpa sem instrumento.

quinta-feira, Maio 8

truz truz

Os pormenores são importantes para compreender Robert Walser. Por exemplo, a sua breve e surpreendente carreira como actor. Não sei muito sobre o assunto mas não importa, porque a minha aproximação é feita de reconstruções e não de factos. A verdade é esta: um turbilhão de gestos e palavras invisíveis dentro de um corpo tão parado e quieto que até assusta. É preciso perceber isso.
E perceber quer dizer entrar lá para dentro. (ah, quanta veleidade!)

quarta-feira, Maio 7





Bibliotecas dos mortos

terça-feira, Maio 6

e agora, estou a pensar em Walser ou nos filmes?

Mono é uma palavra muito vaga, que mais corresponde ao nosso termo «coisa», designando um objecto ou um ser vivo, eventualmente uma personagem humana, mas também, por vezes, uma entidade indefinível, mais ou menos temível, uma «qualquer coisa» que se evita nomear de modo mais preciso por receio de a provocar. Katari (ou gatari) é a forma nominal de um verbo, kataru, que significa «contar, recitar, declamar». Uma tradução literal de monogatari seria, portanto, «narrativa de coisas» que se transmitia, pelo menos originalmente, por via oral, noção que seria perfeitamente ilustrada pelo nosso termo «conto», cujo campo semântico é tão geral e impreciso, tanto mais que expressões como »recitar contos», «contar» implicam que a história é pelo menos parcialmente inventada, senão completamente fabricada, e esse é precisamente o significado de soragoto, «discurso sem sentido», «tolices» ou até «mentira», muitas vezes utilizado para qualificar os monogatori. (..)

retirado das notas — tão úteis que elas são! — que acompanham "O Romance de Genji", p. 346

isto é um suspiro

Histórias de amor, de Robert Walser, Relógio d'Água.

(Ainda não vi o livro, a Lídia disse-me que a capa é feia. — que pena. Eu tenho outra proposta: Greta Garbo, conforme ela aparece em "A saga de Gösta Berlings", embrulhada em folhas de papel de seda.)

Mike Stilkey

In his Summer Window installation, When the Animals Rebel, Los Angeles artist Mike Stilkey has arranged thousands of old books against a massive 16 X 44 foot wall built behind Rice Gallery’s glass façade. Using pen and ink and acrylics, Stilkey has painted the books’ spines to depict a scene where wild and domestic animals are, as he puts it, “taking back their land,” while humans with detached expressions continue their daily routines, seemingly oblivious to the animals’ presence.

Para ver aqui.

segunda-feira, Maio 5

coisas complicadas


Straub também tem uma ideia sobre o filme (página 97 do catálogo), mas não me vou pôr a discutir isso. Eu não sou nada dialéctica, e não levo a sério as coisas complicadas (faço um esforço vão... vejo sempre as palavras a desfazerem-se à minha frente). E o feitio próprio não ajuda. Que chatice!

isto não é um suspiro

Habituei-me a uma tal austeridade que de repente a cidade parece um parque de diversões iluminado. Não há novidades, mas aproveitam-se as reposições. Enquanto as salas do Bom Sucesso fecham de vez?

Em contrução | José Luis Guerín | 9. Maio, 19h30 e 22h00 | Trindade 1
A chinesa
| Jean-Luc Godard | 9. Maio, 22h00 | Campo Alegre
L'Un 01| Alain Resnais, Jean Rouch, Jacques Doillon | 10. Maio, 22h00 | Campo Alegre
O desprezo | Jean-Luc Godard | 11. Maio, 16h00 | Serralves
Os Amantes regulares | Philippe Garrel | 12. Maio, 18h30... | Campo Alegre
Les Lip, L'imagination Au Pouvoir | Christian Rouaud | 12. Maio, 22h00 | Campo Alegre
Primavera tardia | Yasujiro Ozu | 15. Maio, 18h30 e 22h00 | Campo Alegre
Contos da lua vaga | Kenji Mizoguchi | 16. Maio, 18h30 e 22h00 | Campo Alegre
Quando uma mulher sobe as escadas | Mikio Naruse | 17. maio, 18h30 | Campo Alegre
A enguia | Shohei Imamura | 18. Maio, 18h30 e 22h00 | Campo Alegre
Ninguém sabe | Hirokazu Kore-eda| 21. Maio, 18h30 | Campo Alegre
A sombra do caçador | Charles Laughton | 21. Maio, 21h30 | Campo Alegre
Tenho uma doença mental, tenho uma doença de pele. A pele é exterior, o cérebro é interior. Tenho um eczema, tenho uma psicose. Às vezes penso que a pele é interior e que os meus miolos estão à mostra como a mioleira da vaca no balcão do talho.

Adília Lopes, "Irmã Barata, Irmã Batata".

domingo, Maio 4

Voltei a ler o texto de João Bénard da Costa sobre "O Intendente Sanshô". É um texto emotivo, muito bonito, cheio de caminhos a percorrer; poderia, sem dúvida, sublinhar diversas passagens. Porém, o que me apeteceu guardar nem sequer se prende com este filme em particular:
É sempre preciso não perceber nada — ou, pelos menos, começar por não perceber nada — para perceber tudo. Foi assim que todos nós aprendemos a falar. [as folhas da Cinemateca, p. 114]

Sai do escuro e caminha


As parecenças entre Antígona e Anju são impressionantes. Ambas se insurgem contra um poder cruel — Creonte ou Sanshô — em nome da dignidade humana (a lei antiga de que falam os gregos ou as palavras simples do pai de Anju são da mesma natureza). No correr das histórias, as duas raparigas decidem, contra a lei prepotente estabelecida, dar morte digna a Polinices e à velha Namiji. O castigo é terrível, mas mais terrível seria fugirem a si mesmas. É talvez isso que em nós resiste, ou pode resistir, esse apego aos valores mais humanos — dizer sim à vida.

sábado, Maio 3

1 de Maio de 1936



A coisa mais interessante sobre mim é a minha data de nascimento: 1 de Maio de 1936. Depois do liceu fui uma vez à Sorbonne mas saí logo passado meia hora, furiosa e horrorizada. Então preparei-me para o I.D.H.E.C. — e foi aí que conheci Straub. Eu queria fazer documentários — etnográficos. E ainda: não gostava nada de pessoas louras com pele clara; quando era pequena, achava que nada era mais bonito do que as raparigas morenas da escola em Paris (para onde vim apenas aos 13 anos, antes vivia no campo)... Mas acontece que Straub era louro e tinha a pele muito clara, infelizmente! Já tinha aprendido inglês e espanhol e nessa altura tive de aprender também alemão e por fim italiano... bastante dialéctica!

Danièle Huillet, a partir das palavras inglesas de Andy Rector e das palavras alemãs de Klaus Volkmer
— Não nasci para odiar mas sim para amar.
Antígona a Creonte, na tragédia de Sófocles

Desde que vi Antígona no cinema, transformei-a, sem querer, na imagem de Danièle. Uma irreverência na voz, os gestos tão claros... bom, não sei explicar, aliás, isto não se explica — Danièle passou a ser para mim um bocado como a indomável Antígona, e é asssim que gosto dela, à distância próxima dos deuses gregos — o deslumbramento ao lado de um certo medo (ah, se um dia compreendermos o mistério que assusta em "A Fera"). É por isso, creio, que "O joelho de Artemide" é ainda dela, porque ela está agora em todos os diálogos de Pavese (n' "As feiticeiras"), nos olhos (ou no coração, é igual) de Straub, em certos poemas de Hölderlin, na voz rigorosa de Cézanne, e em mil e outras coisas que o pudor me impede de enunciar.

Hoje, sábado, na Fnac do Chiado



Apresentação do livro "Caravana" em Lisboa.
Hoje, sábado, 3 de Maio, 16h30.
Fnac do Chiado.
Com apresentação de Fernando Alvim e leitura de contos pelo autor.
Mais informações sobre o livro aqui.

"Caravana" no webboom.

sexta-feira, Maio 2

Manuel António Pina está de regresso.

A prova de que continua tudo por inventar

Os homens são uns senhoritos. E uns Édipos. Mesmo Adão, que não tinha pai nem mãe, acusa Eva que acusa a víbora.
(Irène-Adrienne acha que os homens são tão bons que não é de estranhar que haja homens homossexuais).

Adília Lopes, "Irmã Barata, Irmã Batata".

quinta-feira, Maio 1

The Road Not Taken, by Robert Frost

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I marked the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I —
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

A Ha (sou como tu)

Mesmo agora, depois dos seus primeiros filmes, sinto que ainda me falta muito tempo para pensar.
No entanto arrisco dizer algo sobre o seu encontro com Ozu, sem provas precisas, por pura diletância. Ocorreu-me ontem à noite, enquanto via "Tempo para viver e tempo para morrer" (a tradução literal do título é "Os meus anos de infância") de 1985. Não tem a ver apenas com as afinidades formais (à data Hou Hsian-hsien nem sequer conhecia os filmes de Ozu), até porque a elas opõem-se outras tantas diferenças. Acho que a relação entre os dois não é, de forma alguma, um gesto de admiração, um jogo de influências — o sentimento é outro, mais entranhado, horizontal. Descobrir fora de nós, alguém que nos é completamente íntimo; um desses encontros raros que baralham a infelicidade do mundo.